31 maio 2026

Sistema

Crianças tão inocentes
Brincam de barquinhos
De papel, e avião de plástico,
E… Como pode?
Ter um ser assim
Tão poeta…
Os jovens são tão
Ligeiros, e degustam
Tantas coisas novas,
Como pode?…
Serem tão poetas.
O adulto que corre
Em busca de coisas sérias
Que perdem tanto ao estado,
Mas às vezes tanto reclamam
Como pode?
Poetas que vivenciou a vida,
E esse sistema que quer ver
Os nossos olhos fechados.

Valter Bitencourt Júnior usando óculos de armação preta e camisa branca.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


28 maio 2026

O Semeador de Ideias: Uma Homenagem ao Centenário de Germano Machado

Germano Machado foi uma das grandes figuras públicas de suma importância para a literatura baiana. Foi um grande filósofo e fundador do Círculo de Estudo Pensamento e Ação (CEPA), onde conseguiu unir diversas personalidades baianas da literatura e das letras, tendo um papel fundamental na formação desses intelectuais. O pouco que tenho participado, como ouvinte e telespectador, de algumas de suas palestras fez com que eu realmente conseguisse enxergar um grande exemplo de ser humano. Ele também lutou pela manutenção do espaço do CEPA, acreditando que quem iria, de fato, continuar com esse maravilhoso projeto seriam os jovens, que ali também frequentavam como aprendizes de seus pensamentos e dos demais palestrantes.

Talvez eu não tenha muito para falar sobre Germano Machado, ao contrário de muitos outros escritores que tiveram a oportunidade de conhecer a sua trajetória de vida desde o início e caminharam junto com ele até o fim. Mesmo assim, acredito que devo deixar as minhas palavras de reconhecimento. Que assim façam muitos outros que ainda o alcançaram em vida; e, quem não o alcançou, que leia as suas obras, que o imortalizam. Hoje marca o centenário de Germano Machado; ele faria 100 anos caso estivesse vivo.

Nesta imagem, vemos Germano Machado autografando o livro de sua autoria, 'Os Dois Brasis', para Valter Bitencourt Júnior.
Nesta imagem, vemos Germano Machado autografando o livro de sua autoria, 'Os Dois Brasis', para Valter Bitencourt Júnior.


A vida

Meu amor acordou de braços abertos
E eu abracei-me, sem mais
E nem menos. Meu amor
Assobiou em minha audição,
E me fez respirar o aroma
Das flores – Carpe Diem!
Sorri para as árvores.
Distante as crianças
Brincavam na praça,
Senhores de idade se balançavam
Na balança e se declaravam
Um para o outro:
“- Eu te amo!”
“- Não mais o quanto
Eu amo você”,
Eu caminhei apaixonado,
O cachorro vinha sorridente,
E eu com medo feito bobo,
Descobrir que os cachorros
São amigos.
Os jovens namoram através
Das redes sociais,
E eu passei com o meu amor
As folhas ganharam formas,
O branco ganhava cor,
E foi se tornando em obra,
Nunca pensei que um dia
Iria admirar o meu amor,
Meu amor resolveu zombar
De mim, não vivo mais
Sem o meu amor.


O meu amor, eu vi, e sempre
Vejo ao olhar no espelho.


Leiam também no meu blog Wordpress: https://valterbitencourtjuniorpoetaeescritor.wordpress.com/2018/05/27/a-vida-3/

Na imagem o poeta e escritor Valter Bitencourt Júnior fazendo uso de óculos de grau com armação preta e camisa branca.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


Máquina

Às vezes a vida parece
Uma espécie de máquina agressiva
Uma máquina livre
Feito um pássaro
Cria asas, voa alto.
Perde-se
Deixando mágoas
Em formas de cachoeiras:
Bate e rebate
Nos seixos
Desmancham-nos,
Aos poucos diminuem,
Os torna um ser pequeno
E aos poucos se sentem pisoteados.
Porém, não bem somos
Uma máquina
Mas somos um ser
Capaz de se aperfeiçoar.

Na imagem o poeta e escritor Valter Bitencourt Júnior fazendo uso de óculos de grau com armação preta e camisa branca com alguns traços pretos. Mais acima alguns quadros.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


22 maio 2026

Memória: Um Ano do Falecimento do Filólogo Evanildo Bechara

Faz um ano que faleceu um dos maiores estudiosos da Língua Portuguesa, Evanildo Bechara. Ele foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Brasileira de Filologia, vindo a falecer aos 97 anos de idade.

Evanildo Cavalcante Bechara nasceu em Recife, em 26 de fevereiro de 1928, e faleceu no Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 2022. Foi professor, gramático e filólogo. Tornou-se Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Evanildo foi um dos editores da Confluência, revista dedicada a temas linguísticos e editada pelo Liceu Literário Português. Também editou a revista Littera, voltada para professores de língua portuguesa e literatura.

Evanildo Bechara usando o fardão tradicional da Academia Brasileira de Letras (ABL), sentado à mesa e falando ao microfone em uma sessão.
Evanildo Bechara usando o fardão tradicional da Academia Brasileira de Letras (ABL), sentado à mesa e falando ao microfone em uma sessão. Imagem reprodução.


18 maio 2026

O Silêncio que Adoece e o Acolhimento que Salva: A Urgência da Saúde Mental Comunitária

Há dias em que somente restam o silêncio e o vazio. Muitas vezes, tentamos abafar esse sentimento e preencher o tempo com atividades como ouvir música, assistir a um filme, fazer uma caminhada ou conversar com as pessoas ao redor para colocar o papo em dia. No entanto, esse vazio que sentimos requer muita atenção e cuidado, principalmente quando gera pensamentos intrusivos — aqueles que vão de encontro às nossas próprias vontades e ações.

Diante disso, acredito que em todo bairro deveria existir um local de apoio psicológico: um ambiente seguro para as pessoas desabafarem, se expressarem e prevenirem problemas como a ansiedade e a depressão. É necessário o investimento em políticas públicas que atendam devidamente a sociedade e a preparem psicologicamente. Precisamos, urgentemente, falar sobre saúde mental.

Para isso, os espaços públicos e privados devem ser abertos para debates. Profissionais e estudantes da área poderiam atuar de forma voluntária, realizando palestras sobre a importância de cuidar da mente, assim como cuidamos do corpo. A sociedade está adoecendo e, hoje, enfrentamos uma grande vilã chamada depressão; por isso, todo cuidado é pouco. É preciso combater o preconceito daqueles que pensam que psicólogos e neuropsicólogos servem apenas para quem tem transtornos graves. Na verdade, o acompanhamento psicológico é de suma importância para a vida de qualquer ser humano.

O sentimento de silêncio e vazio sempre vai existir, assim como a necessidade de nos mantermos ativos, mas é fundamental não permitir que os pensamentos intrusivos atrapalhem a nossa rotina ou levem a situações piores. Quem sabe um dia todos nós tenhamos o direito garantido ao apoio psicológico e possamos superar o preconceito que muitos ainda carregam. A presença desses especialistas — cada um em seu ramo —, bem como a realização de palestras e debates, é essencial para o nosso futuro.


Imagem gerada por inteligência artificial, simulando uma palestra com o público ao redor.
Imagem gerada por inteligência artificial, simulando uma palestra com o público ao redor.


Triste

Triste, triste é você
Voltar atrás e estar
Tudo perdido.
Triste é você morrer
Sem o amor,
Sequer florescer.
Triste é você
Olhar o mundo
Em lágrimas...
Difícil entender!
Triste é esconder
O que está
Escondido
Entre montanhas
Imaginarias.
Triste é viver
Desabitado
Ou delírios constantes.

Selfie de Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa branca.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


Ilusão

Nuvens em neblinas,
Quebras de mar
Na areia
Ondas de ir
E voltar.
Seres de segredos,
Mundo de brinquedos,
Quimeras de poeta
Em um novo lar.

Selfie Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa polo cinza.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


14 maio 2026

Amor inefável

É  inefável
A tua clemência!
O teu martírio, inexorável...
É mister
Saber cuidar-se.
Nem sempre
Se encontra uma mão,
Cuidado!
O seu coração
Que tanto
Sofre
Ficará lasso
Constantemente.


Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


12 maio 2026

Vícios

Entra de cabeça e pés
Em um caminho sem saída
Sua vida iguala um forte rubro
Sem paz!
Faz da vida um jogo
Que flutua e desce
Nas águas cristalinas
E se transforma
Em sofrimento singelo
Se perde nos vícios asquerosos
Quando tudo esta pra ser tarde
Você se isola, se entrega
Sequer vislumbra vontade
Se debate com crise
De abstinência, pertinência
Dias depois tudo parece ser bem.
É solto!
Mas o que vem a sua cabeça
Alimenta-se dos seus vícios
Deixando tristes lágrimas
Descendo pelas cachoeiras?

Na imagem Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa cinza com alguns traços.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


10 maio 2026

A Posse e a Desconstrução do Ter: O Caminho para a Humanização

O ser vai, ao longo do tempo, aprendendo a ter posse do que há por sua volta; o "é meu" é uma das palavras de propriedade em que todos querem segurar e dominar. Percebo a forma como algumas pessoas agem: todos, por sua vez, querem mostrar ter posse de bens materiais ou não materiais.

Desde o início da humanidade, o ser quer mostrar ter domínio e posse das coisas e brigam por isso, porque nem todos querem abrir mão do que lhes pertence. É claro que tem o seu lado positivo e negativo: positivo no quesito de que tem a consciência de posse, desde que não venha a ferir os direitos dos outros; negativo no quesito de apego e apropriação. O ser é humano por ter a consciência do que lhe pertence e se torna desumano na medida em que faz uso dessa consciência como forma de domínio ao outro: a escravização humana provocada através dela mesma. O ser humano pode ter consciência do que lhe pertence, compreende o espaço e suas limitações. Sabe-se também que existe, diante da posse, muitos dos direitos negados.

Todos ganham essa característica de posse desde o nascimento, por mais que ainda não se identifique o nome das coisas e para que servem; a posse, por sua vez, se torna uma questão de sobrevivência. O ser sente o que falta e, ao longo do tempo, vai aprendendo sobre as suas necessidades e existência; e, a partir da posse das coisas, também vai aprendendo a abrir mão como forma de libertação. Mas esse abrir mão depende do tipo de posse — por exemplo, de bens materiais, quando o ser percebe a importância de compartilhar e que não vive sozinho; ou, quem sabe, de acreditar ser dono do outro por questões abstratas ou por morarem juntos. Do concreto ao abstrato, o ser muitas das vezes busca ter posse como forma de autoridade sobre as coisas; isso já é do próprio ser humano e de seus instintos.

Quem muito demonstra ter posse das coisas busca mostrar autoridade; o "é meu" pode se tornar uma forma de diminuir o outro ou fazer com que o outro tenha a consciência do que não lhe pertence e do que é de si mesmo. Assim como há os que dizem "ter", também há os que dizem "não ter", logo percebemos as desigualdades. A desigualdade formada através de uma história passada que deixou herdeiros e uma dívida histórica que veio se formando ao longo do tempo, de pessoas que se tornaram escravizadas por impostores que se apropriaram de terras e se fizeram donas. A propriedade privada se torna desumana quando sabemos que há uma grande concentração de terras nas mãos de uma única pessoa, pessoa essa que se utilizou, muitas das vezes, da mão de obra escrava por muitos anos; divisão de terras é a luta por direitos negados e a busca incessante de justiça.

Percebe-se que há o lado negativo e positivo: o processo de aprendizagem e o seu amadurecimento da compreensão do significado de posse e o significado e sentido de ser humano na medida em que aprende a compartilhar e ser íntegro; da posse à desconstrução dela mesma como forma de humanização da própria espécie.

Na imagem Valter Bitencourt Júnior, em formato de desenho
Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.


09 maio 2026

Por que a morte?

Sinto como se tudo
Estivesse escuro,
Em um tom fúnebre
De longe enxergo lamento,
De seres que não compreendem
Tantos anos de convivência
Mesmo sendo pouco!...
É triste perder um ser
Talvez do nada
Porque no coração
Ele permanece sempre!

...

Mas, por que além da separação
Existe a morte?

Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


O relógio

Você olha várias vezes
O relógio,
Pra ver se o tempo
Passa,
Ele não passa,
Ele voa
Como você anda!

Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


A miséria

Oh! Dores
Que me pegam me prende
Saem ou não dos meus pecados?
Oh! Deus.
Cai do céu uma cachoeira
Devorando casas
Sai dos telúrios
Uma quentura
Oh!Meu senhor nos castiga por quê?
Somos seres impetuosos
Governados por tiranos,
Fazemos muitas das vezes
As nossas próprias lástimas
Não deixando de ser ambicioso
Oh! Vida
A terra está se tornando
Um sofrimento
Fabricado por nós mesmos,
A miséria.




08 maio 2026

O Direito de Falhar Como Humano e Abraçar a Si Mesmo

Muitas das vezes, o ser se condiciona a criar o próprio herói ou heróis, assim como muitos também buscam pessoas perfeitas, caem numa verdadeira ilusão e acabam enganando a si mesmos. O ser erra na medida em que tenta transformar o outro ser em perfeito; muitas das vezes, chega ao ponto de fazer com que o outro acabe crescendo o próprio ego e criando desilusões que podem acabar afetando-o, e muito. O que será mesmo a perfeição? O que será mesmo perfeito diante da mesma? É necessário que tenhamos cuidado com o que buscamos e com o que pode acabar resultando no final: criamos as nossas próprias ilusões, frustrações e decepções.

Sem que ao menos venha a perceber, a gente pode acabar tirando de um ser a sua própria essência e sobrecarregando-o a acreditar que ele deve se mostrar perfeito. Surgem os conflitos internos: "Por que tenho que ser assim?", "Será que esse realmente sou eu?", "Quem eu quero enganar?", "Como reencontrar o meu próprio ser?". No fundo, nada é perfeito; tudo é nada mais e nada menos que maneira de olhar.

Diante de quem busca o herói ou os heróis, de quem busca pessoas perfeitas ou tenta transformar alguém em perfeito, existem também os testadores de honestidade. Assim como não existem pessoas perfeitas, jamais se deve testar a honestidade do próximo. Honestidade não nasceu para ser testada; a gente jamais sabe o impulso do próximo, muito menos sabemos as suas necessidades. Testar a honestidade dos outros é nada mais e nada menos que perder as próprias virtudes.

Não, não quero ser o herói, muito menos quero ser perfeito, assim como também não quero ser testado e muito menos quero ficar 24h provando honestidade. Até porque, na medida em que eu tento ser herói, perfeito, e passo parte do meu tempo tentando provar honestidade, falho miseravelmente como humano. Não quero que joguem em mim esse peso de carregar o que os que buscam nos outros tudo isso também não querem carregar. Seria melhor amar a si mesmo e desconstruir as ilusões que nos tornam cegos e cegam os outros também.

Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.



05 maio 2026

Laços de Humanidade: O Olhar Imprevisível do Cotidiano

A vida é como uma crônica em que o escritor escreve de forma imprevisível; o tempo passa na medida em que se relatam os acontecimentos cotidianos com o olhar que busca captar os mínimos detalhes. Sinto isso ao fazer a leitura do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar". Esse livro mostra a essência de cada um dos três escritores: Xico Sá, Maria Ribeiro e Gregório Duvivier. As crônicas, por incrível que pareça, acabam complementando umas às outras.

Anteriormente, senti a necessidade de escrever sobre a borboleta amarela, mas o faço agora graças à leitura da crônica de Xico Sá, "O desafio da borboleta amarela". Nela, ele cita Rubem Braga e Clarice Lispector, apontando Humberto Werneck como o atual vencedor dessa arte de segui-la. É claro que acabei recorrendo também à crônica de Rubem Braga, "A Borboleta Amarela" — Retornando às leituras do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", surpreendo-me com a crônica de Gregório Duvivier sobre os caçadores de likes. Intitulada "A gente não quer só comida, a gente quer postar e quer ganhar like", ela me fez refletir sobre a borboleta amarela diante da tecnologia atual. Notei o falso prêmio das rolagens infinitas e o quanto estamos presos à tela, perdendo a borboleta de vista. Se antes era difícil enxergá-la, hoje tornou-se ainda mais; mesmo assim, continuamos alimentando nossa sede de forma ilusória. Maria Ribeiro, por sua vez, conecta esses pontos ao destacar a política como forma de união — seja em um show de Gilberto Gil e Caetano Veloso, ou na gratidão pela existência de Chico Buarque. Sua crônica "Obrigada, Bolsonaro" é carregada de ironia; talvez esse ser tenha sido um mal necessário para que, diante de momentos sombrios, lembremos que somos humanos necessitados de união para nos mantermos de pé.

É impossível não citar a crônica "A desaletrada da Rocinha", escrita por Xico Sá, que conta a história de uma senhora de idade. A história de Lindacy Menezes e a sua descoberta pelas letras aos seus 64 anos mostra a importância da arte da leitura e da escrita; o pedido de desculpa e se considerar desaletrada, e mesmo assim ter a ciência de que tomou gosto por dizer as coisas e contar a própria história, é de um valor extraordinário. Também é bom pontuar a importância de projetos literários nos bairros periféricos; foi graças à oficina "Festa Literária das Periferias" (FLUP) que foi descoberta a Lindacy e o reconhecimento de que fora revelada uma narradora de primeira, tendo Zuenir Ventura como alguém da plateia a prestigiar e também reconhecer o talento. Mas a crônica não para por aí; também cita questões de violência e a situação da Rocinha, assim como o caso Amarildo. Mas fico com as palavras finais do cronista, de agradecimento pelas lições de existência e o desabafo pessoal que por sua vez ganha o sentido universal, de se todos os ditos letrados fossem iguais à Lindacy. — Impossível não concordar com o cronista e seu lado humano de captar cada detalhe.

São três cronistas que se complementam de forma fantástica com várias outras crônicas incríveis. São crônicas para realmente ler em qualquer lugar e reacender o calor humano; é o despertar das ideias que compõem os laços da humanidade como o alçar do voo da borboleta.


Imagem da capa do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", por Xico Sá, Gregório Duvivier e Maria Ribeiro
Imagem da capa do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", por Xico Sá, Gregório Duvivier e Maria Ribeiro


O medo

Na rua o medo,
Na rua o medo,
Na rua o medo
Não tenho mais
O medo
Na rua, passou!
E hoje o mundo
Tem pena de mim.



Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.

04 maio 2026

O declínio de Zema e a hipocrisia de Cavalcanti: nossa resposta é a luta por direito e educação

O Romeu Zema não é digno de resposta pela insignificância do que profere, mas todo posicionamento contra suas falas se torna mais que necessário. Suas ideias não refletem a nossa atualidade. Ele mesmo vai se atrofiar e cair no esquecimento, assim como muitos carrascos. Dizer não ao trabalho infantil é proteger nossa futura geração — que tem que estudar e aprender a lutar pelos seus direitos, para não cair nas garras de quem quer vetar conquistas garantidas com muito esforço.

A conscientização social é muito importante para que todos tenham consciência de que tem gente tramando contra os direitos e contra o que há de mais humano na sociedade, tem gente lutando contra as políticas públicas, que muito vieram e continuam ajudando no desenvolvimento do nosso país, assim combatendo as desigualdades. Ele não somente tem a proposta de que as crianças têm que trabalhar como também atacou as políticas públicas; é o tipo de gente que tem a intenção de assumir o poder com a finalidade de contribuir para o empobrecimento social e de sua desestruturação como forma de favorecimento ao mercado.

Recentemente também houve a fala do ex-senador Roberto Cavalcanti, apontando o 1 de maio como o dia da vagabundagem. São palavras gritantes, que visam desmerecer um dia de suma importância do reconhecimento dos direitos dos trabalhadores pela redução de jornada do trabalho para 8 horas, assim como também o direito da segurança do trabalho e a luta pelas melhorias sociais. São negadores da história a proferir hipocrisias como forma de desmerecer conquistas de suma importância para a classe trabalhadora e a sociedade em si. O Brasil segue clamando por justiça, e reparações históricas a cada dia se tornam presentes; hoje em dia a luta é contra a escala 6 x 1 e o direito a passar o tempo com a família, assim como o direito ao lazer e descanso — por uma condição de trabalho melhor.

Essa gente está furiosa com reparações que atualmente vêm sendo feitas. Será colocada em prática uma lei que já existia, porém não era usada: o direito do trabalhador de ter 3 dias de folga remunerada por ano para fazer exames preventivos, e o empregador, por sua vez, tem que informar isso aos trabalhadores. A taxação dos super-ricos entrou em pauta e passou a ser colocada na prática, além da isenção de imposto para quem recebe até cinco mil reais e descontos de imposto para quem recebe de cinco mil reais até sete mil trezentos e cinquenta reais.

Voltando às falas de Zema e até mesmo à de Cavalcanti, há quem acredite que eles estão sendo corajosos nas suas falas hipócritas, mas na verdade sujam a sua própria imagem e escancaram a ignorância da intelectualidade vazia, de quem visa favorecer o mercado e jogar a classe trabalhadora e parte da sociedade aos braços dos leões.

Por fim, o bom de tudo é que sabemos que não estamos sozinhos, assim como também muitos de nós estamos preparados para dar as devidas respostas a esse tipo de gente. Vêm as eleições e temos que, por nossa vez, estar de olhos abertos e atentos. A conscientização como forma de nosso entendimento de aceitação de nossas conquistas, assim como a negação desses senhores que, por sua vez, têm que cair no anonimato de sua própria mesquinhez, arrogância e insignificância.
Pré-candidato a presidente Romeu Zema (Novo) — Foto: Reprodução


03 maio 2026

O Caso Daniela Mercury e Edson Gomes: Ruído, Polarização e a Armadilha da Comunicação Pública

Levantar uma ou mais bandeiras é correr o risco de cometer erros, que podem comprometer o ser pelo resto da vida. Muitos artistas famosos, políticos e palestrantes sabem que vivem diante de uma mídia que pode condená-los distorcendo as suas palavras; quando se trata de distorção de palavras, ainda há como se posicionar. Agora, se o ser erra a fala e acaba se pronunciando errado, ele entrega justamente o que a mídia vai jogar para o público; ele acabou entregando de mão beijada o que vai gerar engajamento. Diante de centenas e centenas de falas de conscientização e de respeito, um único posicionamento errado pode fazer com que todas as demais falas sejam anuladas. A mídia, por sua vez, contribui com isso, e temos uma parte de uma sociedade julgadora e que condena sem mais nem menos; se ela já é contra essa pessoa, essa fala se torna um motivo para ela tentar jogar esse ser no nível mais baixo possível.

A fala de Daniela Mercury, durante a entrega do Troféu Armandinho e Irmãos Macêdo, foi um erro; quanto a isso, não temos dúvida alguma. Mas, por que "a fala?", pelo simples fato de que o que surtiu efeito foi justamente o que a mídia busca, não pense que a mídia busca um discurso impecável e plausível, isso não gera engajamento. Esse erro pode ser cometido por várias outras pessoas que, por sua vez, têm um posicionamento forte e, muitas das vezes, radical (não que ela tenha sido radical em suas falas). Na visão dela, ela estava conscientizando os homens a respeitarem as mulheres; porém, a sua fala saiu como se fosse uma denúncia contra o Edson Gomes, levantando suspeitas que fizeram com que o artista cobrasse provas, e claro que com todo o direito e razão. Uma fala de conscientização acabou se transformando em uma falsa denúncia.

Diante do posicionamento político de ambos, isso também fez com que ganhasse força. Talvez me perguntem o que o posicionamento político tem a ver com isso; não devemos esquecer que o espaço cultural também envolve política. As falas de Daniela Mercury são políticas no quesito de defesa das mulheres; as de Edson Gomes também, na medida em que ele cobra as devidas provas e se recusa a atender ao pedido de Carlinhos Brown de ambos cantarem juntos. Só que estamos no que a mídia chama de 'polarização política', em que a sociedade se encontra dividida, e Edson Gomes já se envolveu antes em outras polêmicas devido ao seu posicionamento conservador.

Não foi fala de lacração; é necessário perceber que ela tentou explicar a fala e o seu posicionamento na defesa das mulheres, inclusive das mulheres negras, que são umas das principais vítimas de violência. A luta pelas causas políticas e sociais não deve ser reduzida à lacração, mesmo que muitos tentem lucrar com isso. Ela reconheceu o erro e os rumos que as falas proferidas de forma errada acabaram provocando. E, quando tentam apontar essas falas como lacração, quem lucra com tudo isso é a mídia, que conseguiu de mão beijada o que ela quer vender.


Imagem reprodução.


02 maio 2026

A Borboleta Amarela na Era da Rolagem Infinita: Duas Visões que se Aproximam

A borboleta amarela, no seu sentido real e figurado do olhar do cronista, passa por toda uma realidade e sobrevive diante do tempo que busca apagá-la. É toda uma sociedade vivendo a realidade e sendo incapaz de enxergar a beleza que pode se esconder diante do asfalto, ao movimento do ônibus e do táxi. O olhar sensível de Rubem Braga é surpreendente; não traça exatamente a fuga da realidade, mas para as pequenas coisas que se tornaram invisíveis ao olhar humano.

A crônica "A borboleta amarela", de Rubem Braga, publicada em 1952, tem se tornado um dos maiores desafios dos cronistas diante da realidade que vivemos hoje em dia e ao avanço tecnológico. É a sociedade que se tornou escrava do tempo, que vive às pressas e transformou a vida numa rotina que leva ao sentimento de significação e, ao mesmo tempo, de insignificância: casa, trabalho, menos lazer; a sensibilidade indo embora e nos tornando uma espécie de máquina condicionada, muitas vezes, às redes sociais e às falsas premiações.

Compreende-se que a realidade de vida hoje é outra; se naquele tempo já era difícil, hoje em dia é pior no quesito da nossa própria falta de atenção, ocasionada pelo choque de realidade e sua banalização. No lugar de abrir o jornal, abrimos sites de notícias — ou sequer os abrimos, lemos apenas o título e a descrição. A rolagem infinita desperta nossos hormônios de satisfação e prazer, mas também sentimentos de estresse. E não apenas o leitor passa por isso, como também o escritor, que sabe que necessita entregar exatamente o que muitos dos leitores buscam.

Por fim, quem sabe a questão hoje em dia não seja exatamente seguir os passos da borboleta amarela, ou tentar enxergá-la, mas a de reencontrar-se. A borboleta amarela na crônica de Rubem Braga surgiu como forma de apontar o quanto vamos perdendo a sensibilidade diante da urbanização e acabamos não enxergando as pequenas coisas, assim como ocorre em nossa atualidade com os avanços tecnológicos. No fundo, a questão não é sobre a borboleta amarela, e sim sobre o nosso próprio ser, atitudes e ações.

Imagem da internet.




01 maio 2026

A Identidade Por Trás do Crime: Uma Análise do Filme "Meu Nome Não é Johnny"

O filme "Meu Nome Não é Johnny" (2008), dirigido por Mauro Lima, traça a trajetória do ser e sua mudança de acordo com o tempo. A obra aborda o nascimento e o processo de criação na formação do ser humano, em que a importância do pai e da mãe é fundamental. A criança vai, aos poucos, crescendo e compreendendo o que se passa dentro de casa, percebendo os conflitos e as discussões de separação. O filme é baseado em uma história real e narra a trajetória de João Guilherme Estrella, interpretado pelo ator Selton Mello. A esposa de João também é uma das peças fundamentais para compreender o desfecho do filme; o nome dela é Sofia, interpretada por Cleo Pires.

Todo ser humano tem seu próprio sonho — quem sabe o de comprar uma prancha e ser surfista — e acredita que o pai pode ajudar nos primeiros passos de seus empreendimentos. Aprender a "pescar", talvez, seja uma das questões mais complicadas diante de um mundo de desigualdades. Mesmo sabendo que o personagem vem de uma família nobre e estruturada, ganha-se a visão para compreender a história, o sentido do filme e seu contexto. Diante das condições da família, João é uma das peças que passa despercebida em suas más práticas e ações criminosas devido à linhagem familiar e a um sistema corrompido pelas elites.

Iniciar a vida como entregador de jornais seria, talvez, uma forma de "pescar" e juntar os próprios recursos, já que o pai, interpretado por Giulio Lopes, tinha por finalidade ensinar o filho a pescar. Vê-se um ensinamento plausível de um pai que transmite ao filho uma lição de grande importância para a vida e a sobrevivência humana. Há a visão de que existe o criador do bem e do mal, e o despertar dos prazeres através das drogas e influências. Sabem-se os limites, porém não se sabe até quando alguém pode se deixar levar por tais influências. A mãe foi interpretada por Júlia Lemmertz.

É na adolescência que ocorrem as descobertas das drogas (sejam lícitas ou ilícitas), da diversão e do despertar do prazer na busca de aproveitar ao máximo a vida; nessa fase, nenhum adolescente quer ficar para trás. Todos querem mostrar que são adultos ou donos de si — esta é uma das fases que mais requer a atenção dos pais. Infelizmente, à medida que os filhos se desenvolvem, os pais muitas vezes se afastam por medo de invadir a privacidade ou por não saberem interagir devidamente. O filme só ganha importância real se esses pontos forem devidamente questionados.

Diante da separação dos pais, dentro da própria casa, João ganha a sensação de "liberdade" enquanto o próprio pai adoece. Talvez uma das maiores lições tenha sido dada pelo pai pouco antes de tudo: ele comparou a vida a uma raposa, mostrando o quanto o tempo pode passar sem que a pessoa perceba, sendo traiçoeiro como o animal. O pai, que era diretor de banco e foi diagnosticado com câncer, também consumia bebida e fumava, o que preocupava a mãe e gerava discussões que acarretaram a separação. Ele se isolou de tudo, e o filho ganhou a "liberdade" promovendo festas enquanto o pai ficava no quarto. O filme não expressou um forte sentimento de culpa do filho nem se estendeu muito sobre esse ocorrido específico.

Surgiu a imagem do traficante que vende pequenas quantidades e gera lucro aos fornecedores em um mundo de diversão e entorpecentes. A visão sobre essas pessoas também tem que estar presente: a conduta delas nem sempre se deve à criação dada pelos pais; em muitos casos, os pais são os últimos a perceberem o que ocorre, principalmente quando se tornam distantes de seus filhos. Mesmo citando os conflitos familiares, esse não é o fator principal que justifica João ter se tornado traficante. É necessário perceber sua busca por prazer, diversão e adrenalina; assim como se tornou usuário das drogas que comercializava, o tráfico virou seu meio de renda.

A corrupção se faz presente de todas as formas: desde o ser corrompido pelas drogas até o sistema que tira proveito disso — como quando policiais aparecem e cobram dinheiro para deixá-lo "em paz". Ao chegarem à casa de João, mostra-se a situação de sobrevivência de um usuário e traficante que vive de forma precária, permitindo que a energia elétrica e a linha telefônica fossem cortadas. Com a droga encontrada, houve a pressão para que ele conseguisse dinheiro para suborná-los. Após empréstimos e prazos, os policiais garantem a "paz" em uma situação tratada quase como galhofa — os agentes ainda tentam vender para ele a droga que fora apreendida. Isso evidencia que a finalidade do sistema nem sempre é acabar com o tráfico, pois o próprio sistema o gera. João responde que vai mudar de vida, mas novas propostas tentadoras o fazem retornar às vendas em quantidades maiores.

Nesse processo de gerar lucro, houve o reconhecimento de que o negócio precisava ser ampliado. João possuía uma clientela que fazia parte de sua vida social; ele não era apenas um fornecedor, mas alguém com vínculos de amizade que comercializava com facilidade e sem suspeitas. Então, surge a descoberta de pessoas poderosas capazes de criar esquemas que geram muito dinheiro. Ao falar outros idiomas, João mostrou vir de uma linhagem familiar com acesso à educação; logo, ele deixa de ser visto como um simples traficante e passa a ser um megatraficante internacional, movimentando quantias que impactam a economia, com estratégias para despistar a Polícia Federal.
Na conclusão do serviço, a diferença de perfis é perceptível: enquanto seu sócio aponta que tem como meta chegar a um milhão de dólares, João rebate dizendo que sua meta é torrar um milhão de dólares com festas, drogas e tudo o que se pode imaginar. Esse contraste de objetivos logo gera ciúmes e intrigas. Cada um toma seu rumo; João esbanja dinheiro em Veneza e viaja com a esposa. O desgaste emocional de Sofia aumenta, culminando na cena em que ela decide se afastar e seguir sua própria vida.

O filme também mostrou a corrupção no sistema carcerário, com o advogado levando cigarros para serem partilhados entre os detentos. Na cadeia, a divisão de grupos é clara, assim como a presença de agentes corruptos. No julgamento, as provas já apontavam sua condenação. No entanto, ficava claro que João não era um traficante comum; ele não usava armas pesadas e agia com naturalidade. Após subornar um agente para facilitar visitas íntimas, ele sofre o impacto do isolamento e da descoberta de que sua estrutura afetiva fora de casa havia se desfeito, gerando profunda frustração.

Nos depoimentos, surge um usuário a quem João negou vender drogas e que, após ameaçá-lo, o entregou à polícia. Ao assumir que as drogas eram suas, ele afirmou sua verdadeira identidade, deixando claro que "Johnny" era apenas um apelido do mundo do crime. Ao declarar que seu nome é João Guilherme Estrella, ele retomou sua humanidade e responsabilidade, admitindo não ser digno do esforço da família para libertá-lo e confessando que o vício o dominara. O advogado, então, sugeriu a estratégia de solicitar a internação para tratamento de sua dependência química, permitindo que ele recebesse cuidados em vez da pena carcerária comum. Na internação, o ambiente muda, e ele se depara com pessoas que sofrem de transtornos psicológicos e dependências graves, vivenciando o peso das consequências de suas escolhas.

Enfim, sabe-se que João Guilherme Estrella está solto e, hoje em dia, é produtor musical e palestrante, compartilhando sua história. O filme mostra a importância de discutir a capacidade do ser humano de se reabilitar e se reintegrar à sociedade. Muitos outros não tiveram a mesma oportunidade de refazer a vida, pois João contou com o suporte de uma família que custeou advogados e deu o apoio necessário. Cabe também ao Estado rever seu modelo prisional para que, além de oferecer a reintegração, ofereça suportes reais para que as pessoas não vejam na criminalidade a única opção de renda.


João Guilherme Estrella na interpretação de Selton Mello. Imagem da internet/Reprodução.

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