sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Identidade Por Trás do Crime: Uma Análise do Filme "Meu Nome Não é Johnny"

O filme "Meu Nome Não é Johnny" (2008), dirigido por Mauro Lima, traça a trajetória do ser e sua mudança de acordo com o tempo. A obra aborda o nascimento e o processo de criação na formação do ser humano, em que a importância do pai e da mãe é fundamental. A criança vai, aos poucos, crescendo e compreendendo o que se passa dentro de casa, percebendo os conflitos e as discussões de separação. O filme é baseado em uma história real e narra a trajetória de João Guilherme Estrella, interpretado pelo ator Selton Mello. A esposa de João também é uma das peças fundamentais para compreender o desfecho do filme; o nome dela é Sofia, interpretada por Cleo Pires.

Todo ser humano tem seu próprio sonho — quem sabe o de comprar uma prancha e ser surfista — e acredita que o pai pode ajudar nos primeiros passos de seus empreendimentos. Aprender a "pescar", talvez, seja uma das questões mais complicadas diante de um mundo de desigualdades. Mesmo sabendo que o personagem vem de uma família nobre e estruturada, ganha-se a visão para compreender a história, o sentido do filme e seu contexto. Diante das condições da família, João é uma das peças que passa despercebida em suas más práticas e ações criminosas devido à linhagem familiar e a um sistema corrompido pelas elites.

Iniciar a vida como entregador de jornais seria, talvez, uma forma de "pescar" e juntar os próprios recursos, já que o pai, interpretado por Giulio Lopes, tinha por finalidade ensinar o filho a pescar. Vê-se um ensinamento plausível de um pai que transmite ao filho uma lição de grande importância para a vida e a sobrevivência humana. Há a visão de que existe o criador do bem e do mal, e o despertar dos prazeres através das drogas e influências. Sabem-se os limites, porém não se sabe até quando alguém pode se deixar levar por tais influências. A mãe foi interpretada por Júlia Lemmertz.

É na adolescência que ocorrem as descobertas das drogas (sejam lícitas ou ilícitas), da diversão e do despertar do prazer na busca de aproveitar ao máximo a vida; nessa fase, nenhum adolescente quer ficar para trás. Todos querem mostrar que são adultos ou donos de si — esta é uma das fases que mais requer a atenção dos pais. Infelizmente, à medida que os filhos se desenvolvem, os pais muitas vezes se afastam por medo de invadir a privacidade ou por não saberem interagir devidamente. O filme só ganha importância real se esses pontos forem devidamente questionados.

Diante da separação dos pais, dentro da própria casa, João ganha a sensação de "liberdade" enquanto o próprio pai adoece. Talvez uma das maiores lições tenha sido dada pelo pai pouco antes de tudo: ele comparou a vida a uma raposa, mostrando o quanto o tempo pode passar sem que a pessoa perceba, sendo traiçoeiro como o animal. O pai, que era diretor de banco e foi diagnosticado com câncer, também consumia bebida e fumava, o que preocupava a mãe e gerava discussões que acarretaram a separação. Ele se isolou de tudo, e o filho ganhou a "liberdade" promovendo festas enquanto o pai ficava no quarto. O filme não expressou um forte sentimento de culpa do filho nem se estendeu muito sobre esse ocorrido específico.

Surgiu a imagem do traficante que vende pequenas quantidades e gera lucro aos fornecedores em um mundo de diversão e entorpecentes. A visão sobre essas pessoas também tem que estar presente: a conduta delas nem sempre se deve à criação dada pelos pais; em muitos casos, os pais são os últimos a perceberem o que ocorre, principalmente quando se tornam distantes de seus filhos. Mesmo citando os conflitos familiares, esse não é o fator principal que justifica João ter se tornado traficante. É necessário perceber sua busca por prazer, diversão e adrenalina; assim como se tornou usuário das drogas que comercializava, o tráfico virou seu meio de renda.

A corrupção se faz presente de todas as formas: desde o ser corrompido pelas drogas até o sistema que tira proveito disso — como quando policiais aparecem e cobram dinheiro para deixá-lo "em paz". Ao chegarem à casa de João, mostra-se a situação de sobrevivência de um usuário e traficante que vive de forma precária, permitindo que a energia elétrica e a linha telefônica fossem cortadas. Com a droga encontrada, houve a pressão para que ele conseguisse dinheiro para suborná-los. Após empréstimos e prazos, os policiais garantem a "paz" em uma situação tratada quase como galhofa — os agentes ainda tentam vender para ele a droga que fora apreendida. Isso evidencia que a finalidade do sistema nem sempre é acabar com o tráfico, pois o próprio sistema o gera. João responde que vai mudar de vida, mas novas propostas tentadoras o fazem retornar às vendas em quantidades maiores.

Nesse processo de gerar lucro, houve o reconhecimento de que o negócio precisava ser ampliado. João possuía uma clientela que fazia parte de sua vida social; ele não era apenas um fornecedor, mas alguém com vínculos de amizade que comercializava com facilidade e sem suspeitas. Então, surge a descoberta de pessoas poderosas capazes de criar esquemas que geram muito dinheiro. Ao falar outros idiomas, João mostrou vir de uma linhagem familiar com acesso à educação; logo, ele deixa de ser visto como um simples traficante e passa a ser um megatraficante internacional, movimentando quantias que impactam a economia, com estratégias para despistar a Polícia Federal.
Na conclusão do serviço, a diferença de perfis é perceptível: enquanto seu sócio aponta que tem como meta chegar a um milhão de dólares, João rebate dizendo que sua meta é torrar um milhão de dólares com festas, drogas e tudo o que se pode imaginar. Esse contraste de objetivos logo gera ciúmes e intrigas. Cada um toma seu rumo; João esbanja dinheiro em Veneza e viaja com a esposa. O desgaste emocional de Sofia aumenta, culminando na cena em que ela decide se afastar e seguir sua própria vida.

O filme também mostrou a corrupção no sistema carcerário, com o advogado levando cigarros para serem partilhados entre os detentos. Na cadeia, a divisão de grupos é clara, assim como a presença de agentes corruptos. No julgamento, as provas já apontavam sua condenação. No entanto, ficava claro que João não era um traficante comum; ele não usava armas pesadas e agia com naturalidade. Após subornar um agente para facilitar visitas íntimas, ele sofre o impacto do isolamento e da descoberta de que sua estrutura afetiva fora de casa havia se desfeito, gerando profunda frustração.

Nos depoimentos, surge um usuário a quem João negou vender drogas e que, após ameaçá-lo, o entregou à polícia. Ao assumir que as drogas eram suas, ele afirmou sua verdadeira identidade, deixando claro que "Johnny" era apenas um apelido do mundo do crime. Ao declarar que seu nome é João Guilherme Estrella, ele retomou sua humanidade e responsabilidade, admitindo não ser digno do esforço da família para libertá-lo e confessando que o vício o dominara. O advogado, então, sugeriu a estratégia de solicitar a internação para tratamento de sua dependência química, permitindo que ele recebesse cuidados em vez da pena carcerária comum. Na internação, o ambiente muda, e ele se depara com pessoas que sofrem de transtornos psicológicos e dependências graves, vivenciando o peso das consequências de suas escolhas.

Enfim, sabe-se que João Guilherme Estrella está solto e, hoje em dia, é produtor musical e palestrante, compartilhando sua história. O filme mostra a importância de discutir a capacidade do ser humano de se reabilitar e se reintegrar à sociedade. Muitos outros não tiveram a mesma oportunidade de refazer a vida, pois João contou com o suporte de uma família que custeou advogados e deu o apoio necessário. Cabe também ao Estado rever seu modelo prisional para que, além de oferecer a reintegração, ofereça suportes reais para que as pessoas não vejam na criminalidade a única opção de renda.


João Guilherme Estrella na interpretação de Selton Mello. Imagem da internet/Reprodução.

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