22 maio 2026

Memória: Um Ano do Falecimento do Filólogo Evanildo Bechara

Faz um ano que faleceu um dos maiores estudiosos da Língua Portuguesa, Evanildo Bechara. Ele foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Brasileira de Filologia, vindo a falecer aos 97 anos de idade.

Evanildo Cavalcante Bechara nasceu em Recife, em 26 de fevereiro de 1928, e faleceu no Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 2022. Foi professor, gramático e filólogo. Tornou-se Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Evanildo foi um dos editores da Confluência, revista dedicada a temas linguísticos e editada pelo Liceu Literário Português. Também editou a revista Littera, voltada para professores de língua portuguesa e literatura.

Evanildo Bechara usando o fardão tradicional da Academia Brasileira de Letras (ABL), sentado à mesa e falando ao microfone em uma sessão.
Evanildo Bechara usando o fardão tradicional da Academia Brasileira de Letras (ABL), sentado à mesa e falando ao microfone em uma sessão. Imagem reprodução.


18 maio 2026

O Silêncio que Adoece e o Acolhimento que Salva: A Urgência da Saúde Mental Comunitária

Há dias em que somente restam o silêncio e o vazio. Muitas vezes, tentamos abafar esse sentimento e preencher o tempo com atividades como ouvir música, assistir a um filme, fazer uma caminhada ou conversar com as pessoas ao redor para colocar o papo em dia. No entanto, esse vazio que sentimos requer muita atenção e cuidado, principalmente quando gera pensamentos intrusivos — aqueles que vão de encontro às nossas próprias vontades e ações.

Diante disso, acredito que em todo bairro deveria existir um local de apoio psicológico: um ambiente seguro para as pessoas desabafarem, se expressarem e prevenirem problemas como a ansiedade e a depressão. É necessário o investimento em políticas públicas que atendam devidamente a sociedade e a preparem psicologicamente. Precisamos, urgentemente, falar sobre saúde mental.

Para isso, os espaços públicos e privados devem ser abertos para debates. Profissionais e estudantes da área poderiam atuar de forma voluntária, realizando palestras sobre a importância de cuidar da mente, assim como cuidamos do corpo. A sociedade está adoecendo e, hoje, enfrentamos uma grande vilã chamada depressão; por isso, todo cuidado é pouco. É preciso combater o preconceito daqueles que pensam que psicólogos e neuropsicólogos servem apenas para quem tem transtornos graves. Na verdade, o acompanhamento psicológico é de suma importância para a vida de qualquer ser humano.

O sentimento de silêncio e vazio sempre vai existir, assim como a necessidade de nos mantermos ativos, mas é fundamental não permitir que os pensamentos intrusivos atrapalhem a nossa rotina ou levem a situações piores. Quem sabe um dia todos nós tenhamos o direito garantido ao apoio psicológico e possamos superar o preconceito que muitos ainda carregam. A presença desses especialistas — cada um em seu ramo —, bem como a realização de palestras e debates, é essencial para o nosso futuro.


Imagem gerada por inteligência artificial, simulando uma palestra com o público ao redor.
Imagem gerada por inteligência artificial, simulando uma palestra com o público ao redor.


Triste

Triste, triste é você
Voltar atrás e estar
Tudo perdido.
Triste é você morrer
Sem o amor,
Sequer florescer.
Triste é você
Olhar o mundo
Em lágrimas...
Difícil entender!
Triste é esconder
O que está
Escondido
Entre montanhas
Imaginarias.
Triste é viver
Desabitado
Ou delírios constantes.

Selfie de Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa branca.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


Ilusão

Nuvens em neblinas,
Quebras de mar
Na areia
Ondas de ir
E voltar.
Seres de segredos,
Mundo de brinquedos,
Quimeras de poeta
Em um novo lar.

Selfie Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa polo cinza.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


14 maio 2026

Amor inefável

É  inefável
A tua clemência!
O teu martírio, inexorável...
É mister
Saber cuidar-se.
Nem sempre
Se encontra uma mão,
Cuidado!
O seu coração
Que tanto
Sofre
Ficará lasso
Constantemente.


Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


12 maio 2026

Vícios

Entra de cabeça e pés
Em um caminho sem saída
Sua vida iguala um forte rubro
Sem paz!
Faz da vida um jogo
Que flutua e desce
Nas águas cristalinas
E se transforma
Em sofrimento singelo
Se perde nos vícios asquerosos
Quando tudo esta pra ser tarde
Você se isola, se entrega
Sequer vislumbra vontade
Se debate com crise
De abstinência, pertinência
Dias depois tudo parece ser bem.
É solto!
Mas o que vem a sua cabeça
Alimenta-se dos seus vícios
Deixando tristes lágrimas
Descendo pelas cachoeiras?

Na imagem Valter Bitencourt Júnior usando óculos e camisa cinza com alguns traços.
Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


10 maio 2026

A Posse e a Desconstrução do Ter: O Caminho para a Humanização

O ser vai, ao longo do tempo, aprendendo a ter posse do que há por sua volta; o "é meu" é uma das palavras de propriedade em que todos querem segurar e dominar. Percebo a forma como algumas pessoas agem: todos, por sua vez, querem mostrar ter posse de bens materiais ou não materiais.

Desde o início da humanidade, o ser quer mostrar ter domínio e posse das coisas e brigam por isso, porque nem todos querem abrir mão do que lhes pertence. É claro que tem o seu lado positivo e negativo: positivo no quesito de que tem a consciência de posse, desde que não venha a ferir os direitos dos outros; negativo no quesito de apego e apropriação. O ser é humano por ter a consciência do que lhe pertence e se torna desumano na medida em que faz uso dessa consciência como forma de domínio ao outro: a escravização humana provocada através dela mesma. O ser humano pode ter consciência do que lhe pertence, compreende o espaço e suas limitações. Sabe-se também que existe, diante da posse, muitos dos direitos negados.

Todos ganham essa característica de posse desde o nascimento, por mais que ainda não se identifique o nome das coisas e para que servem; a posse, por sua vez, se torna uma questão de sobrevivência. O ser sente o que falta e, ao longo do tempo, vai aprendendo sobre as suas necessidades e existência; e, a partir da posse das coisas, também vai aprendendo a abrir mão como forma de libertação. Mas esse abrir mão depende do tipo de posse — por exemplo, de bens materiais, quando o ser percebe a importância de compartilhar e que não vive sozinho; ou, quem sabe, de acreditar ser dono do outro por questões abstratas ou por morarem juntos. Do concreto ao abstrato, o ser muitas das vezes busca ter posse como forma de autoridade sobre as coisas; isso já é do próprio ser humano e de seus instintos.

Quem muito demonstra ter posse das coisas busca mostrar autoridade; o "é meu" pode se tornar uma forma de diminuir o outro ou fazer com que o outro tenha a consciência do que não lhe pertence e do que é de si mesmo. Assim como há os que dizem "ter", também há os que dizem "não ter", logo percebemos as desigualdades. A desigualdade formada através de uma história passada que deixou herdeiros e uma dívida histórica que veio se formando ao longo do tempo, de pessoas que se tornaram escravizadas por impostores que se apropriaram de terras e se fizeram donas. A propriedade privada se torna desumana quando sabemos que há uma grande concentração de terras nas mãos de uma única pessoa, pessoa essa que se utilizou, muitas das vezes, da mão de obra escrava por muitos anos; divisão de terras é a luta por direitos negados e a busca incessante de justiça.

Percebe-se que há o lado negativo e positivo: o processo de aprendizagem e o seu amadurecimento da compreensão do significado de posse e o significado e sentido de ser humano na medida em que aprende a compartilhar e ser íntegro; da posse à desconstrução dela mesma como forma de humanização da própria espécie.

Na imagem Valter Bitencourt Júnior, em formato de desenho
Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.


09 maio 2026

Por que a morte?

Sinto como se tudo
Estivesse escuro,
Em um tom fúnebre
De longe enxergo lamento,
De seres que não compreendem
Tantos anos de convivência
Mesmo sendo pouco!...
É triste perder um ser
Talvez do nada
Porque no coração
Ele permanece sempre!

...

Mas, por que além da separação
Existe a morte?

Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


O relógio

Você olha várias vezes
O relógio,
Pra ver se o tempo
Passa,
Ele não passa,
Ele voa
Como você anda!

Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


A miséria

Oh! Dores
Que me pegam me prende
Saem ou não dos meus pecados?
Oh! Deus.
Cai do céu uma cachoeira
Devorando casas
Sai dos telúrios
Uma quentura
Oh!Meu senhor nos castiga por quê?
Somos seres impetuosos
Governados por tiranos,
Fazemos muitas das vezes
As nossas próprias lástimas
Não deixando de ser ambicioso
Oh! Vida
A terra está se tornando
Um sofrimento
Fabricado por nós mesmos,
A miséria.




08 maio 2026

O Direito de Falhar Como Humano e Abraçar a Si Mesmo

Muitas das vezes, o ser se condiciona a criar o próprio herói ou heróis, assim como muitos também buscam pessoas perfeitas, caem numa verdadeira ilusão e acabam enganando a si mesmos. O ser erra na medida em que tenta transformar o outro ser em perfeito; muitas das vezes, chega ao ponto de fazer com que o outro acabe crescendo o próprio ego e criando desilusões que podem acabar afetando-o, e muito. O que será mesmo a perfeição? O que será mesmo perfeito diante da mesma? É necessário que tenhamos cuidado com o que buscamos e com o que pode acabar resultando no final: criamos as nossas próprias ilusões, frustrações e decepções.

Sem que ao menos venha a perceber, a gente pode acabar tirando de um ser a sua própria essência e sobrecarregando-o a acreditar que ele deve se mostrar perfeito. Surgem os conflitos internos: "Por que tenho que ser assim?", "Será que esse realmente sou eu?", "Quem eu quero enganar?", "Como reencontrar o meu próprio ser?". No fundo, nada é perfeito; tudo é nada mais e nada menos que maneira de olhar.

Diante de quem busca o herói ou os heróis, de quem busca pessoas perfeitas ou tenta transformar alguém em perfeito, existem também os testadores de honestidade. Assim como não existem pessoas perfeitas, jamais se deve testar a honestidade do próximo. Honestidade não nasceu para ser testada; a gente jamais sabe o impulso do próximo, muito menos sabemos as suas necessidades. Testar a honestidade dos outros é nada mais e nada menos que perder as próprias virtudes.

Não, não quero ser o herói, muito menos quero ser perfeito, assim como também não quero ser testado e muito menos quero ficar 24h provando honestidade. Até porque, na medida em que eu tento ser herói, perfeito, e passo parte do meu tempo tentando provar honestidade, falho miseravelmente como humano. Não quero que joguem em mim esse peso de carregar o que os que buscam nos outros tudo isso também não querem carregar. Seria melhor amar a si mesmo e desconstruir as ilusões que nos tornam cegos e cegam os outros também.

Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.



05 maio 2026

Laços de Humanidade: O Olhar Imprevisível do Cotidiano

A vida é como uma crônica em que o escritor escreve de forma imprevisível; o tempo passa na medida em que se relatam os acontecimentos cotidianos com o olhar que busca captar os mínimos detalhes. Sinto isso ao fazer a leitura do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar". Esse livro mostra a essência de cada um dos três escritores: Xico Sá, Maria Ribeiro e Gregório Duvivier. As crônicas, por incrível que pareça, acabam complementando umas às outras.

Anteriormente, senti a necessidade de escrever sobre a borboleta amarela, mas o faço agora graças à leitura da crônica de Xico Sá, "O desafio da borboleta amarela". Nela, ele cita Rubem Braga e Clarice Lispector, apontando Humberto Werneck como o atual vencedor dessa arte de segui-la. É claro que acabei recorrendo também à crônica de Rubem Braga, "A Borboleta Amarela" — Retornando às leituras do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", surpreendo-me com a crônica de Gregório Duvivier sobre os caçadores de likes. Intitulada "A gente não quer só comida, a gente quer postar e quer ganhar like", ela me fez refletir sobre a borboleta amarela diante da tecnologia atual. Notei o falso prêmio das rolagens infinitas e o quanto estamos presos à tela, perdendo a borboleta de vista. Se antes era difícil enxergá-la, hoje tornou-se ainda mais; mesmo assim, continuamos alimentando nossa sede de forma ilusória. Maria Ribeiro, por sua vez, conecta esses pontos ao destacar a política como forma de união — seja em um show de Gilberto Gil e Caetano Veloso, ou na gratidão pela existência de Chico Buarque. Sua crônica "Obrigada, Bolsonaro" é carregada de ironia; talvez esse ser tenha sido um mal necessário para que, diante de momentos sombrios, lembremos que somos humanos necessitados de união para nos mantermos de pé.

É impossível não citar a crônica "A desaletrada da Rocinha", escrita por Xico Sá, que conta a história de uma senhora de idade. A história de Lindacy Menezes e a sua descoberta pelas letras aos seus 64 anos mostra a importância da arte da leitura e da escrita; o pedido de desculpa e se considerar desaletrada, e mesmo assim ter a ciência de que tomou gosto por dizer as coisas e contar a própria história, é de um valor extraordinário. Também é bom pontuar a importância de projetos literários nos bairros periféricos; foi graças à oficina "Festa Literária das Periferias" (FLUP) que foi descoberta a Lindacy e o reconhecimento de que fora revelada uma narradora de primeira, tendo Zuenir Ventura como alguém da plateia a prestigiar e também reconhecer o talento. Mas a crônica não para por aí; também cita questões de violência e a situação da Rocinha, assim como o caso Amarildo. Mas fico com as palavras finais do cronista, de agradecimento pelas lições de existência e o desabafo pessoal que por sua vez ganha o sentido universal, de se todos os ditos letrados fossem iguais à Lindacy. — Impossível não concordar com o cronista e seu lado humano de captar cada detalhe.

São três cronistas que se complementam de forma fantástica com várias outras crônicas incríveis. São crônicas para realmente ler em qualquer lugar e reacender o calor humano; é o despertar das ideias que compõem os laços da humanidade como o alçar do voo da borboleta.


Imagem da capa do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", por Xico Sá, Gregório Duvivier e Maria Ribeiro
Imagem da capa do livro "Crônicas para ler em qualquer lugar", por Xico Sá, Gregório Duvivier e Maria Ribeiro


O medo

Na rua o medo,
Na rua o medo,
Na rua o medo
Não tenho mais
O medo
Na rua, passou!
E hoje o mundo
Tem pena de mim.



Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.

04 maio 2026

O declínio de Zema e a hipocrisia de Cavalcanti: nossa resposta é a luta por direito e educação

O Romeu Zema não é digno de resposta pela insignificância do que profere, mas todo posicionamento contra suas falas se torna mais que necessário. Suas ideias não refletem a nossa atualidade. Ele mesmo vai se atrofiar e cair no esquecimento, assim como muitos carrascos. Dizer não ao trabalho infantil é proteger nossa futura geração — que tem que estudar e aprender a lutar pelos seus direitos, para não cair nas garras de quem quer vetar conquistas garantidas com muito esforço.

A conscientização social é muito importante para que todos tenham consciência de que tem gente tramando contra os direitos e contra o que há de mais humano na sociedade, tem gente lutando contra as políticas públicas, que muito vieram e continuam ajudando no desenvolvimento do nosso país, assim combatendo as desigualdades. Ele não somente tem a proposta de que as crianças têm que trabalhar como também atacou as políticas públicas; é o tipo de gente que tem a intenção de assumir o poder com a finalidade de contribuir para o empobrecimento social e de sua desestruturação como forma de favorecimento ao mercado.

Recentemente também houve a fala do ex-senador Roberto Cavalcanti, apontando o 1 de maio como o dia da vagabundagem. São palavras gritantes, que visam desmerecer um dia de suma importância do reconhecimento dos direitos dos trabalhadores pela redução de jornada do trabalho para 8 horas, assim como também o direito da segurança do trabalho e a luta pelas melhorias sociais. São negadores da história a proferir hipocrisias como forma de desmerecer conquistas de suma importância para a classe trabalhadora e a sociedade em si. O Brasil segue clamando por justiça, e reparações históricas a cada dia se tornam presentes; hoje em dia a luta é contra a escala 6 x 1 e o direito a passar o tempo com a família, assim como o direito ao lazer e descanso — por uma condição de trabalho melhor.

Essa gente está furiosa com reparações que atualmente vêm sendo feitas. Será colocada em prática uma lei que já existia, porém não era usada: o direito do trabalhador de ter 3 dias de folga remunerada por ano para fazer exames preventivos, e o empregador, por sua vez, tem que informar isso aos trabalhadores. A taxação dos super-ricos entrou em pauta e passou a ser colocada na prática, além da isenção de imposto para quem recebe até cinco mil reais e descontos de imposto para quem recebe de cinco mil reais até sete mil trezentos e cinquenta reais.

Voltando às falas de Zema e até mesmo à de Cavalcanti, há quem acredite que eles estão sendo corajosos nas suas falas hipócritas, mas na verdade sujam a sua própria imagem e escancaram a ignorância da intelectualidade vazia, de quem visa favorecer o mercado e jogar a classe trabalhadora e parte da sociedade aos braços dos leões.

Por fim, o bom de tudo é que sabemos que não estamos sozinhos, assim como também muitos de nós estamos preparados para dar as devidas respostas a esse tipo de gente. Vêm as eleições e temos que, por nossa vez, estar de olhos abertos e atentos. A conscientização como forma de nosso entendimento de aceitação de nossas conquistas, assim como a negação desses senhores que, por sua vez, têm que cair no anonimato de sua própria mesquinhez, arrogância e insignificância.
Pré-candidato a presidente Romeu Zema (Novo) — Foto: Reprodução


03 maio 2026

O Caso Daniela Mercury e Edson Gomes: Ruído, Polarização e a Armadilha da Comunicação Pública

Levantar uma ou mais bandeiras é correr o risco de cometer erros, que podem comprometer o ser pelo resto da vida. Muitos artistas famosos, políticos e palestrantes sabem que vivem diante de uma mídia que pode condená-los distorcendo as suas palavras; quando se trata de distorção de palavras, ainda há como se posicionar. Agora, se o ser erra a fala e acaba se pronunciando errado, ele entrega justamente o que a mídia vai jogar para o público; ele acabou entregando de mão beijada o que vai gerar engajamento. Diante de centenas e centenas de falas de conscientização e de respeito, um único posicionamento errado pode fazer com que todas as demais falas sejam anuladas. A mídia, por sua vez, contribui com isso, e temos uma parte de uma sociedade julgadora e que condena sem mais nem menos; se ela já é contra essa pessoa, essa fala se torna um motivo para ela tentar jogar esse ser no nível mais baixo possível.

A fala de Daniela Mercury, durante a entrega do Troféu Armandinho e Irmãos Macêdo, foi um erro; quanto a isso, não temos dúvida alguma. Mas, por que "a fala?", pelo simples fato de que o que surtiu efeito foi justamente o que a mídia busca, não pense que a mídia busca um discurso impecável e plausível, isso não gera engajamento. Esse erro pode ser cometido por várias outras pessoas que, por sua vez, têm um posicionamento forte e, muitas das vezes, radical (não que ela tenha sido radical em suas falas). Na visão dela, ela estava conscientizando os homens a respeitarem as mulheres; porém, a sua fala saiu como se fosse uma denúncia contra o Edson Gomes, levantando suspeitas que fizeram com que o artista cobrasse provas, e claro que com todo o direito e razão. Uma fala de conscientização acabou se transformando em uma falsa denúncia.

Diante do posicionamento político de ambos, isso também fez com que ganhasse força. Talvez me perguntem o que o posicionamento político tem a ver com isso; não devemos esquecer que o espaço cultural também envolve política. As falas de Daniela Mercury são políticas no quesito de defesa das mulheres; as de Edson Gomes também, na medida em que ele cobra as devidas provas e se recusa a atender ao pedido de Carlinhos Brown de ambos cantarem juntos. Só que estamos no que a mídia chama de 'polarização política', em que a sociedade se encontra dividida, e Edson Gomes já se envolveu antes em outras polêmicas devido ao seu posicionamento conservador.

Não foi fala de lacração; é necessário perceber que ela tentou explicar a fala e o seu posicionamento na defesa das mulheres, inclusive das mulheres negras, que são umas das principais vítimas de violência. A luta pelas causas políticas e sociais não deve ser reduzida à lacração, mesmo que muitos tentem lucrar com isso. Ela reconheceu o erro e os rumos que as falas proferidas de forma errada acabaram provocando. E, quando tentam apontar essas falas como lacração, quem lucra com tudo isso é a mídia, que conseguiu de mão beijada o que ela quer vender.


Imagem reprodução.


02 maio 2026

A Borboleta Amarela na Era da Rolagem Infinita: Duas Visões que se Aproximam

A borboleta amarela, no seu sentido real e figurado do olhar do cronista, passa por toda uma realidade e sobrevive diante do tempo que busca apagá-la. É toda uma sociedade vivendo a realidade e sendo incapaz de enxergar a beleza que pode se esconder diante do asfalto, ao movimento do ônibus e do táxi. O olhar sensível de Rubem Braga é surpreendente; não traça exatamente a fuga da realidade, mas para as pequenas coisas que se tornaram invisíveis ao olhar humano.

A crônica "A borboleta amarela", de Rubem Braga, publicada em 1952, tem se tornado um dos maiores desafios dos cronistas diante da realidade que vivemos hoje em dia e ao avanço tecnológico. É a sociedade que se tornou escrava do tempo, que vive às pressas e transformou a vida numa rotina que leva ao sentimento de significação e, ao mesmo tempo, de insignificância: casa, trabalho, menos lazer; a sensibilidade indo embora e nos tornando uma espécie de máquina condicionada, muitas vezes, às redes sociais e às falsas premiações.

Compreende-se que a realidade de vida hoje é outra; se naquele tempo já era difícil, hoje em dia é pior no quesito da nossa própria falta de atenção, ocasionada pelo choque de realidade e sua banalização. No lugar de abrir o jornal, abrimos sites de notícias — ou sequer os abrimos, lemos apenas o título e a descrição. A rolagem infinita desperta nossos hormônios de satisfação e prazer, mas também sentimentos de estresse. E não apenas o leitor passa por isso, como também o escritor, que sabe que necessita entregar exatamente o que muitos dos leitores buscam.

Por fim, quem sabe a questão hoje em dia não seja exatamente seguir os passos da borboleta amarela, ou tentar enxergá-la, mas a de reencontrar-se. A borboleta amarela na crônica de Rubem Braga surgiu como forma de apontar o quanto vamos perdendo a sensibilidade diante da urbanização e acabamos não enxergando as pequenas coisas, assim como ocorre em nossa atualidade com os avanços tecnológicos. No fundo, a questão não é sobre a borboleta amarela, e sim sobre o nosso próprio ser, atitudes e ações.

Imagem da internet.




01 maio 2026

A Identidade Por Trás do Crime: Uma Análise do Filme "Meu Nome Não é Johnny"

O filme "Meu Nome Não é Johnny" (2008), dirigido por Mauro Lima, traça a trajetória do ser e sua mudança de acordo com o tempo. A obra aborda o nascimento e o processo de criação na formação do ser humano, em que a importância do pai e da mãe é fundamental. A criança vai, aos poucos, crescendo e compreendendo o que se passa dentro de casa, percebendo os conflitos e as discussões de separação. O filme é baseado em uma história real e narra a trajetória de João Guilherme Estrella, interpretado pelo ator Selton Mello. A esposa de João também é uma das peças fundamentais para compreender o desfecho do filme; o nome dela é Sofia, interpretada por Cleo Pires.

Todo ser humano tem seu próprio sonho — quem sabe o de comprar uma prancha e ser surfista — e acredita que o pai pode ajudar nos primeiros passos de seus empreendimentos. Aprender a "pescar", talvez, seja uma das questões mais complicadas diante de um mundo de desigualdades. Mesmo sabendo que o personagem vem de uma família nobre e estruturada, ganha-se a visão para compreender a história, o sentido do filme e seu contexto. Diante das condições da família, João é uma das peças que passa despercebida em suas más práticas e ações criminosas devido à linhagem familiar e a um sistema corrompido pelas elites.

Iniciar a vida como entregador de jornais seria, talvez, uma forma de "pescar" e juntar os próprios recursos, já que o pai, interpretado por Giulio Lopes, tinha por finalidade ensinar o filho a pescar. Vê-se um ensinamento plausível de um pai que transmite ao filho uma lição de grande importância para a vida e a sobrevivência humana. Há a visão de que existe o criador do bem e do mal, e o despertar dos prazeres através das drogas e influências. Sabem-se os limites, porém não se sabe até quando alguém pode se deixar levar por tais influências. A mãe foi interpretada por Júlia Lemmertz.

É na adolescência que ocorrem as descobertas das drogas (sejam lícitas ou ilícitas), da diversão e do despertar do prazer na busca de aproveitar ao máximo a vida; nessa fase, nenhum adolescente quer ficar para trás. Todos querem mostrar que são adultos ou donos de si — esta é uma das fases que mais requer a atenção dos pais. Infelizmente, à medida que os filhos se desenvolvem, os pais muitas vezes se afastam por medo de invadir a privacidade ou por não saberem interagir devidamente. O filme só ganha importância real se esses pontos forem devidamente questionados.

Diante da separação dos pais, dentro da própria casa, João ganha a sensação de "liberdade" enquanto o próprio pai adoece. Talvez uma das maiores lições tenha sido dada pelo pai pouco antes de tudo: ele comparou a vida a uma raposa, mostrando o quanto o tempo pode passar sem que a pessoa perceba, sendo traiçoeiro como o animal. O pai, que era diretor de banco e foi diagnosticado com câncer, também consumia bebida e fumava, o que preocupava a mãe e gerava discussões que acarretaram a separação. Ele se isolou de tudo, e o filho ganhou a "liberdade" promovendo festas enquanto o pai ficava no quarto. O filme não expressou um forte sentimento de culpa do filho nem se estendeu muito sobre esse ocorrido específico.

Surgiu a imagem do traficante que vende pequenas quantidades e gera lucro aos fornecedores em um mundo de diversão e entorpecentes. A visão sobre essas pessoas também tem que estar presente: a conduta delas nem sempre se deve à criação dada pelos pais; em muitos casos, os pais são os últimos a perceberem o que ocorre, principalmente quando se tornam distantes de seus filhos. Mesmo citando os conflitos familiares, esse não é o fator principal que justifica João ter se tornado traficante. É necessário perceber sua busca por prazer, diversão e adrenalina; assim como se tornou usuário das drogas que comercializava, o tráfico virou seu meio de renda.

A corrupção se faz presente de todas as formas: desde o ser corrompido pelas drogas até o sistema que tira proveito disso — como quando policiais aparecem e cobram dinheiro para deixá-lo "em paz". Ao chegarem à casa de João, mostra-se a situação de sobrevivência de um usuário e traficante que vive de forma precária, permitindo que a energia elétrica e a linha telefônica fossem cortadas. Com a droga encontrada, houve a pressão para que ele conseguisse dinheiro para suborná-los. Após empréstimos e prazos, os policiais garantem a "paz" em uma situação tratada quase como galhofa — os agentes ainda tentam vender para ele a droga que fora apreendida. Isso evidencia que a finalidade do sistema nem sempre é acabar com o tráfico, pois o próprio sistema o gera. João responde que vai mudar de vida, mas novas propostas tentadoras o fazem retornar às vendas em quantidades maiores.

Nesse processo de gerar lucro, houve o reconhecimento de que o negócio precisava ser ampliado. João possuía uma clientela que fazia parte de sua vida social; ele não era apenas um fornecedor, mas alguém com vínculos de amizade que comercializava com facilidade e sem suspeitas. Então, surge a descoberta de pessoas poderosas capazes de criar esquemas que geram muito dinheiro. Ao falar outros idiomas, João mostrou vir de uma linhagem familiar com acesso à educação; logo, ele deixa de ser visto como um simples traficante e passa a ser um megatraficante internacional, movimentando quantias que impactam a economia, com estratégias para despistar a Polícia Federal.
Na conclusão do serviço, a diferença de perfis é perceptível: enquanto seu sócio aponta que tem como meta chegar a um milhão de dólares, João rebate dizendo que sua meta é torrar um milhão de dólares com festas, drogas e tudo o que se pode imaginar. Esse contraste de objetivos logo gera ciúmes e intrigas. Cada um toma seu rumo; João esbanja dinheiro em Veneza e viaja com a esposa. O desgaste emocional de Sofia aumenta, culminando na cena em que ela decide se afastar e seguir sua própria vida.

O filme também mostrou a corrupção no sistema carcerário, com o advogado levando cigarros para serem partilhados entre os detentos. Na cadeia, a divisão de grupos é clara, assim como a presença de agentes corruptos. No julgamento, as provas já apontavam sua condenação. No entanto, ficava claro que João não era um traficante comum; ele não usava armas pesadas e agia com naturalidade. Após subornar um agente para facilitar visitas íntimas, ele sofre o impacto do isolamento e da descoberta de que sua estrutura afetiva fora de casa havia se desfeito, gerando profunda frustração.

Nos depoimentos, surge um usuário a quem João negou vender drogas e que, após ameaçá-lo, o entregou à polícia. Ao assumir que as drogas eram suas, ele afirmou sua verdadeira identidade, deixando claro que "Johnny" era apenas um apelido do mundo do crime. Ao declarar que seu nome é João Guilherme Estrella, ele retomou sua humanidade e responsabilidade, admitindo não ser digno do esforço da família para libertá-lo e confessando que o vício o dominara. O advogado, então, sugeriu a estratégia de solicitar a internação para tratamento de sua dependência química, permitindo que ele recebesse cuidados em vez da pena carcerária comum. Na internação, o ambiente muda, e ele se depara com pessoas que sofrem de transtornos psicológicos e dependências graves, vivenciando o peso das consequências de suas escolhas.

Enfim, sabe-se que João Guilherme Estrella está solto e, hoje em dia, é produtor musical e palestrante, compartilhando sua história. O filme mostra a importância de discutir a capacidade do ser humano de se reabilitar e se reintegrar à sociedade. Muitos outros não tiveram a mesma oportunidade de refazer a vida, pois João contou com o suporte de uma família que custeou advogados e deu o apoio necessário. Cabe também ao Estado rever seu modelo prisional para que, além de oferecer a reintegração, ofereça suportes reais para que as pessoas não vejam na criminalidade a única opção de renda.


João Guilherme Estrella na interpretação de Selton Mello. Imagem da internet/Reprodução.

29 abril 2026

Torto Arado: A luta da ancestralidade e a formação da identidade de um povo


O livro "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, não resgata a fala do povo em que a história é narrada. Mesmo não fazendo esse resgate da fala, ele conseguiu levar elementos e costumes antigos que ainda se encontram presentes em nossa atualidade; faz com que o leitor sinta-se, muitas das vezes, dentro do livro. O traço se torna contemporâneo e quebra a visão de regionalismo; ganha um sentido universal na medida em que a história é narrada, não como forma de resgatar as tradições apenas, mas de fazer com que o leitor seja levado ao contexto do que foi narrado por Bibiana e, mais à frente, Belonísia. No desenrolar da história, também dá para sentir a mudança de estilo de escrita, como se apontasse Belonísia com uma idade avançada. O autor soube diferenciar a forma que cada uma narra a história, o traço da escrita e o aspecto de cada uma: de alguém que foi ganhando uma visão politizada para alguém que se tornou da terra e que ganhou essa visão com o tempo, assim não unificando a narração e dando sentido ao contexto. A terceira personagem narrando a terceira parte do livro é Santa Rita Pescadeira, o que se faz necessário para amarrar a história que foi traçada da primeira parte até a última, lembrando que a história é dividida em 3 partes: Fio de Ferro, Faca de Ponta e Rio de Sangue.

A obra, se comparada com o regionalismo, em que muitas das obras descreviam a transição da região para a urbanização, a civilização de seu povo, o surgimento do comércio e da industrialização, ganha importância no fato de que houve a ocupação do espaço e de que havia sempre pessoas que ali chegavam na busca de moradia e trabalho; o desenvolvimento se torna a questão de visão política, do contexto social e da crença. De forma fluida e contemporânea, a obra ganhou um aspecto que tem chamado a atenção de diversos críticos literários: a renovação e a fluidez das ideias. O autor universalizou a obra de acordo com a visão de um autor de nossa atualidade, sem abrir brechas para que a leitura se torne cansativa. Essa visão não é uma forma de descartar as obras regionalistas escritas por pessoas daquela época; deve ser entendida como uma obra feita por alguém que já se encontra na contemporaneidade e sujeito a mudanças provocadas pelo tempo, visão também que vem a partir de anos e anos de estudos. Alguns comparam à Literatura Periférica; pelo contexto histórico é a partir da abolição que surgem as periferias; essa visão é importante na medida em que o ser passa a conhecer o contexto histórico presente no livro e a formação do povo, que por sua vez lutava por moradia e trabalho.


Nem toda obra tem que ser lida como regionalista somente pelo fato de ter sido escrita no Nordeste e conter os traços ou falas nordestinas. Desde que se sabe que há outros elementos presentes que podem oferecer outras classificações, a obra também é afrodescendente, no resgate de elementos tradicionais inseridos no contexto da história e seus elos políticos, sociais e humanos.


A terra Água Negra é um reflexo de um passado em que os que foram libertos na escravidão passaram a ganhar um pedaço de terra para morar e, em troca, pagar através do que produziam nessas terras. Bibiana descreve com precisão o quanto aquilo era um meio de exploração dos que ali habitavam diante do proprietário, que não somente cobrava o trabalho braçal, como também parte do que era ganho através das vendas externas. A necessidade da existência de escolas para que os filhos dos trabalhadores tivessem o direito de aprender a ler e a escrever despertou a sede de Bibiana de explorar outros lugares; logo surgiu o primo Severo, que queria sair de Água Negra para explorar outros ambientes; surgiu uma visão política.


A curiosidade de Bibiana e Belonísia de saber o que Donana guardava na mala é o aspecto de qualquer criança que quer descobrir os mistérios que lhe são reservados em segredo, porém havia a consciência de que, ao abrir aquela mala, iriam desapontar Donana, que muito nelas confiava. O acidente que ambas sofreram e a língua de Belonísia, que foi atingida, apontaram que não havia hospital em Água Negra e que tinham de ir para a cidade, o que matou a curiosidade de ambas em saber como era o caminho, diante da situação pela qual passavam. As mãos de Donana pesando em suas cabeças são, ao mesmo tempo, o sentimento de culpa e preocupação e a ligação de acontecimentos passados que voltava a preocupar. O pai seguia a tradição preparando ervas para curar a filha, mas a chegada ao hospital fez com que ele mudasse de postura como forma de não receber retaliação por seus feitos tradicionais. Como se entrasse na história de "Mil e uma Noites", onde se estabeleceu a justiça e a razão, houve o reconhecimento de Zeca Chapéu Grande de que a sua prática não era aceita e a ocultação de sua identidade. Voltando-se a Belonísia e a Bibiana, esse ciclo se fecha como dois elos de forma contrária: enquanto na história árabe Sherazade usa a palavra para adiar a morte, em "Torto Arado" o silêncio de Belonísia e a voz de Bibiana se tornam ferramentas de sobrevivência. Enquanto o pai oculta a voz para sobreviver ao sistema, como razão de sobrevivência, Bibiana expõe a voz para mudar o sistema, como razão de luta, e Belonísia usa o silêncio para não ser destruída por ele, como razão de existência. Quanto à mãe? Salustiana assume o papel da busca de compreensão dos elos.


Donana, por sua vez, busca dar fim à faca que carregava o peso de tragédias passadas e, em um gesto de tentativa de apagamento do trauma, enterra o objeto em uma área próxima ao rio, esperando que a terra e a umidade consumissem aquele segredo. No entanto, anos depois, após a fuga de Bibiana com Severo, Belonísia, já em sua fase de amadurecimento e solidão na fazenda, a encontra novamente ao cavar o solo. Esse ciclo se torna essencial na narrativa porque marca a transformação da dor em resistência e diferencia o papel das irmãs: enquanto Bibiana parte para lutar através da política e das palavras, Belonísia permanece como a força guardiã que preserva a ancestralidade no território. O que antes era um símbolo de mutilação e silêncio forçado, ao ser desenterrado, transmuta-se em um instrumento de justiça; a faca deixa de ser uma ferida na linhagem das mulheres da família para se tornar a ferramenta que, nas mãos de Belonísia, finalmente corta o ciclo de opressão imposto pelos senhores da fazenda.


A compreensão plena desse ciclo só se completa próximo ao final do livro, quando as camadas do passado de Donana são reveladas: a morte de seu primeiro marido e a violência de seu segundo companheiro, que culminou no abuso sofrido por sua filha, Carmelita. Revelam-se trauma ancestral, o assassinato do agressor cometido por Donana com aquela mesma faca e a subsequente expulsão de Carmelita. Ao desenterrar a faca, Belonísia não resgata apenas um metal, mas reconecta-se com toda a história de sobrevivência, substituição e silenciamento da linhagem de sua avó Donana.


E, é claro, diante desse contexto, há a necessidade de alguém que seja visto como uma 'cura dos problemas'. O autor soube colocar essa questão em que Zeca Chapéu Grande era, além de um líder de família, um curador da região através do conhecimento das ervas e das tradições que mantêm e sustentam os elos de todo um povo que se reencontra e se identifica; destaca-se a importância do terreiro em um ambiente em que muitos estavam ali ocupando espaço como meio de garantir a moradia e o alimento. O jarê tornou-se um espaço de resistência.


Surge a importância das parteiras e o seu papel fundamental: de Donana ao filho Zeca Chapéu Grande, que fazia esse trabalho e ao passar para a esposa Salu a responsabilidade de ser parteira. É mostrado também o fato de ele ser homem e o quanto isso o deixava constrangido, bem como a questão de receber entidades femininas e a caracterização de acordo com elas; Zeca Chapéu Grande tinha que fazer uso de saias. Isso não tirava dele a visão de importância que tinha para todo o povo que ali vivia e se instalava ao longo do tempo.


A descoberta da traição entre as irmãs Crispina e Crispiana foi mais um dos pontos alarmantes. A gravidez de ambas, causada pela mesma pessoa, é um dos pontos críticos que faz com que se reflita sobre uma questão delicada, não somente de traição, mas também de desolação, sofrimento e o enlouquecimento diante da descoberta e a busca de cura através da ajuda de Zeca Chapéu Grande. Ele teve que hospedar a paciente até a cura, apontando se a situação era curável. Uma delas perdeu o filho, e a que perdeu o filho virou mãe de leite; o que aproximou as irmãs novamente, isso foi o que ficou refletido na mente de Bibiana, pois ela viu todo o contexto e escutou de que o pai das moças queria matar quem as engravidou.


Apesar de muitos verem o relacionamento entre primos como pecado, não era estranho para aquela época e região pequena, em que muitos acabavam se atraindo e gerando família. Bibiana, ao entregar Belonísia para a mãe dizendo que ela estava com Severo, fez com que ela levasse uma surra; essa passagem mostra a inocência de duas crianças que ainda não tinham maldade e a forma com que os adultos as puniam. Aponta também o ciúme de Bibiana por ser a mais velha e mostra a visão avançada da irmã. O caso de Severo com Bibiana e a gravidez dela fizeram com que ela refletisse sobre o que escutou, despertando o medo da reação dos pais e de como as demais pessoas veriam isso. A necessidade de fugir tornou-se presente, não somente para lutar por uma vida melhor, mas pelo que poderia acontecer caso permanecessem em Água Negra.


Donana é o ser que ganha importância pela sua idade e vivência. Ela leva os leitores a momentos em que vemos senhores de idade falando sozinhos; cochichando palavras que, muitas vezes, tornam-se incompreensíveis, remetendo a lembranças de avós que falavam sós enquanto costuravam. Donana fala sozinha como forma de manter vivos os antepassados e seus acontecimentos, em um diálogo de conciliação, enxerga a neta como se fosse a filha Carmelita. O respeito aos mais velhos é o que a tradição preza; saber que ela já estava em idade avançada e trocando os nomes das netas, ou vendo o cachorro Fusco como uma onça. Ao longo da leitura, entendemos os motivos: a quebra de obrigação de assumir o jarê, o filho castigado ficando louco, a fuga e o que tornou Zeca Chapéu Grande uma peça importante para Água Negra.


Com a partida de Bibiana, Belonísia assume a narração, apontando a injustiça de terem que dar parte do que produziam para a família Peixoto através do gerente Sutério e o abuso de ele apropriar-se do que era plantado e vendido; isso mostra Belonísia deixando de ser criança. O surgimento de Tobias, escolhido pelo pai para morar com ela, reflete a época em que muitas não escolhiam com quem se relacionar. Bibiana foi diferente, e talvez por isso Belonísia tenha sentido como se tivesse traído a irmã com a denúncia do passado. Diante do mistério do chapéu grande, Donana passou a ser chamada apenas de Donana, e Zeca levou o restante do apelido.


Ao morar com Tobias, Belonísia deparou-se com a casa suja e sentiu vontade de voltar para os pais. O autor mostra que ela foi entregue ao papel de dona do lar; ela assumiu a tarefa como se fosse o normal da vida de um casal. Tobias vai trabalhar, comunica a Belonísia de que ela pode preparar o almoço. No retorno de Tobias, ele bebe, ela serve o almoço e fica ao seu lado, criando a ideia de fidelidade e submissão. O contato sexual era algo esperado, mas ela não sabia como começar; sentiu alívio quando não aconteceu logo na chegada, o que aconteceu pela noite, o silêncio de Belonísia representa também a sua violação; a leitura não tem que ser feita somente como se fosse um acidente anterior. A questão da agressão da mulher o que muito acontecia em Água Negra. A Maria Cabocla correu até a casa de Tobias e encontrou Belonísia, Maria Cabocla ficou com medo de apanhar do marido Aparecido. Isso fez com que Belonísia refletisse que Tobias também poderia se tornar um agressor físico, o que quase ocorreu mais adiante. Com o tempo, Tobias passou a chegar embriagado e a questionar Belonísia, até derrubar o prato de comida e gritar sobre o fato de ela ser muda. Ali nasceu o que se esperava: o homem assumindo o papel de quem dita as regras, vindo da criação, da religião e do que o Estado impõe.


A descoberta do falecimento de Tobias ocorre em uma trama de mistério. Belonísia torna-se viúva, carregando um fardo como o de Donana. No velório, a família esperava que ela demonstrasse sentimento, mas ela sentiu vontade de rir, embora soubesse que não soaria bem. Ela decide morar sozinha na mesma casa, uma decisão firme de autonomia, reconhecendo que o espaço lhe pertence pelo que cultivou. Maria Cabocla aparece novamente com medo do marido, e Belonísia vai ajudá-la, sentindo o instinto de arrumar o desarrumado. Maria Cabocla expulsa Aparecido, que questiona ser o dono da casa, enquanto os filhos clamam para que ele fique, habituados à violência. Belonísia preocupou-se com o sustento da amiga sem um homem, visão herdada dos antepassados, mas compreendeu a necessidade daquela nova vida.


O retorno de Bibiana e Severo trouxe a construção de uma casa próxima aos pais, mantendo os costumes. Bibiana torna-se professora, e Severo leva adiante ideias sindicalistas, respeitando Zeca Chapéu Grande. Zeca foi aposentado pelo Estado, o que via como indenização pelo suor derramado, após dificuldades com documentações junto aos proprietários. Com a morte de Zeca, o livro resgata sua história como José Alcino da Silva, algo necessário para dar sentido às partes anteriores. Também discorre sobre o contexto geográfico dos diamantes e a busca da riqueza.


Rita Pescadeira narra a morte de Severo, provocada pelos donos da terra, como o Coronel Salomão, como forma de silenciamento. Apesar de serem vistos como moradores, a exploração continuava sob uma falsa justiça de posse. Severo foi fundamental na garantia de direitos, e isso custou sua vida. Bibiana assume seu papel através da visão social e justiça. Na narrativa, percebe-se a terceira voz, de Santa Rita Pescadeira, que se mistura às vozes das irmãs. Após a morte de Severo, uma falsa investigação policial acusou-o descabidamente de tráfico de drogas, causando indignação. É a luta continuada pelo direito à terra e por casas que não sejam de barro, mas de materiais resistentes como as dos proprietários, casa essa que muitos nutriram a vontade de incendiar como forma de justiça pelo assassinato de Severo.


A personagem Estela entra em cena como forma de apontar que também havia o conflito religioso, já que ela era evangélica e tinha o papel de evangelizar e ir contra a tradição que ali foi cultuada. A esposa do novo proprietário, Salomão, mostrou que não houve apenas mudanças que geraram conflito entre as partes. A polícia se tornando presente e os crimes que passaram a surgir como forma de silenciar os demais fortaleceram a sede por justiça entre os que ali habitavam, mas houve também um choque político, cultural, social e religioso: o entendimento de que aquele povo é quilombola e a tentativa de negação de suas raízes.


A obra revela que, diante do apaziguamento que Zeca Chapéu Grande estabeleceu com os proprietários da terra como forma de demonstrar gratidão pela moradia e trabalho, Severo teve uma grande importância na conscientização da população que ali habitava. A morte de Zeca trouxe um novo roteiro, assim como a venda das terras para um novo proprietário, o Coronel Salomão. Mais adiante, a morte de Severo foi o estopim para que a luta por justiça ganhasse força real. O assassinato injusto e o descaso das autoridades romperam o antigo vínculo de gratidão e silêncio que antes impedia o confronto. A partir desse evento, a indignação de Bibiana e de todo o povo transformou-se em uma consciência política ativa, provando que a justiça não seria concedida de forma pacífica, mas sim conquistada através do reconhecimento do próprio histórico de exploração e do direito legítimo à posse da terra e indenização.


Portanto, Itamar Vieira Junior conseguiu, através da sua obra "Torto Arado", apontar o lado social e humano de todo um povo que conseguiu sobreviver aos impactos da abolição e suas consequências. Estas levaram os demais a lutar pelos seus direitos de moradia e pelo não apagamento de suas raízes, firmando-se no que já lhes pertence por direito e no seguimento da luta por justiça, não somente contra o que o reflexo do antepassado tentou vetar, mas também contra o que, na atualidade, ainda tentam negar de forma disfarçada.

Referência de leitura: VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto Arado. 1. ed. Rio de Janeiro: Todavia, 2019.


Foto: Giovanni Marrozzini/Intercept Brasil.


23 abril 2026

Sina

A tragédia
Também produz dinheiro,
Para quem vive
Na ambição
De tirar proveito.
Tem gente lucrando
Da nossa miséria,
Tem gente lucrando
Da nossa desgraça,
Tem gente
Manipulando a nossa
Mente,
Tem gente zombando
Da gente.
Tem gente
De tudo que é jeito
Que tira proveito
Da nossa crença,
Que brinca
Com a nossa humildade,
Que brinca com a nossa
Lealdade:
- Sociedade vivendo na cegueira.
Tem gente que nos separa
Em oposição.
E sustentamos
Todo o sistema,
Para o nosso próprio
Desespero,
E ser visto
Como bom
Cidadão.



Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.

22 abril 2026

O amor em cada sorriso

Como pode o amor se perder
E sequer ser encontrado,
O amor se perdeu por entre
A beleza, e por lá ficou.
Mas o amor, o amor pode se perder?
Logo o menino saiu
Pela estrada,
E viu uma flor, sorriu
Viu os olhos da menina distante,
E sorriu,
Viu o barquinho de papel
Navegando pelo mar
E sorriu, fez um aviãozinho
E sorriu, e o amor
O amor encontra-se no olhar
De quem sabe ver a vida,
E levar na face um belo sorriso.
O amor foi encontrado,
E quem semeou o amor
Semeou pra todos
Pra que possamos saber
Viver, e quem vive
Carrega dentro de si
O amor, em cada
Sorriso.


Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


19 abril 2026

A Democracia Sob Ataque: Da Colonização do Imaginário ao Hackeamento Biológico

A democracia, quando foge de seus princípios éticos e morais, torna-se ameaçada e limita-se a uma pequena quantidade de pessoas, formada por uma base elitista. Esta, por sua vez, acaba se tornando uma "maioria" diante daqueles que não têm acesso à tecnologia ou que, tendo acesso, limitam-se ao que os algoritmos impõem, caindo nas mãos de poderosos da macroeconomia. Logo, a democracia cai nas mãos de grupos que visam, muitas vezes, perpetuar-se no poder, gerando uma falsa democracia. Essa gente ganha uma capacidade enorme de manipulação social por meio de gigantes como as Big Techs, que manipulam a verdade transmitindo falsas ideias convencionais.

Essas gigantes da tecnologia vêm ganhando força na sociedade, que consome o que o algoritmo transmite: conteúdos monetizados que geram engajamento, mas que podem causar um grande estrago psicológico naqueles que se condicionam a aceitar como verdade tudo o que é consumido. Devido a fatores convencionais que unem o verdadeiro e o falso, o ser humano acaba moldado a ponto de defender princípios que, muitas vezes, entram em desencontro com seus próprios interesses. Essa definição é conhecida como "colonização do imaginário". A democracia, por sua vez, acaba perdendo seus elos, impactando a sociedade que não consegue exercer sua função democrática através de ideais e princípios; gera-se discórdia e promove-se o ódio sob o pretexto de liberdade de expressão e preconceito.

É necessário compreender cada um desses pontos: quando o algoritmo vende o ódio e o preconceito como se fossem coragem ou liberdade de opinião, funciona como um gatilho psicológico e emocional para os usuários como forma de lucro, monetizando o conflito gerado pela discórdia. Isso acarreta a quebra da fraternidade, impedindo que os cidadãos se unam em torno de interesses comuns que visam garantir seus direitos. Passamos a ser uma sociedade dividida e cheia de ódio, facilitando a manipulação de uma elite que busca a perpetuação no poder. Assim, a soberania é, muitas vezes, entregue voluntariamente; a democracia morre porque as ideias são asfixiadas e o debate torna-se manipulado e alheio aos princípios éticos.

Estamos diante de uma engenharia do ódio, onde o conflito é selecionado como forma de obter atenção, validando o que há de mais primitivo no ser humano como meio de lucrar. Criam-se inimigos imaginários a ponto de não haver espaço para a discussão de projetos de país que visem ao seu desenvolvimento; esse diálogo corrompe-se pelos gatilhos emocionais gerados pelos algoritmos. Sem que perceba, a sociedade torna-se o maior cabo eleitoral de quem visa dominá-la, abrindo mão de seus direitos reais para defender símbolos e conexões falsas impostas.

O Papa Leão XIV foi preciso ao alertar que a democracia corre o risco de se tornar uma "tirania da maioria" ou uma "máscara para o domínio de elites econômicas e tecnológicas". É necessário que a sociedade ganhe esse conhecimento e busque compreender o que ele quer transmitir, até porque essa "maioria" citada inclui também a sociedade já subordinada aos algoritmos, para os quais seus ideais foram vendidos. Ou seja, podemos estar apenas operando o software que a elite instalou em nosso imaginário, abrindo mão de direitos fundamentais em troca de símbolos vazios ou ataques a inimigos fabricados por quem nos quer manipular. Isso é o que se conhece como "voto de cabresto digital".

Essa questão é também de saúde pública e deve ser tratada como soberania cidadã, e não como ferramenta de disputa partidária. Isso demonstra a urgência da alfabetização midiática digital, da necessidade de debates amplos e contundentes sobre a temática e da importância da regulamentação da internet — algo que deve ser debatido com seriedade. A pressão econômica é um dos fatores que impede que a regulamentação dessas redes seja implementada seriamente: as Big Techs e as elites da macroeconomia possuem orçamentos que superam o PIB de muitos países e utilizam esse poder para fazer lobby, promover-se através da monetização e convencer o público de que qualquer regulamentação é um ataque à liberdade de expressão. Na verdade, a regulamentação seria uma defesa contra a exploração, que se torna cada vez mais presente com a Inteligência Artificial (IA).

É necessário reconhecer que grande parte da sociedade já foi afetada, o que faz com que muitos se sintam isentos de contrariar o que lhes é imposto. Além disso, parte dessas pessoas descobriu na rede um meio de gerar renda, o que fortalece ainda mais as gigantes da macroeconomia. Essa turma criou armadilhas perfeitas que prendem os usuários e os limitam. Como já descrito, isso é uma questão de saúde pública. Temos ideia de quanto isso tem afetado a sociedade, inclusive a cada um de nós? Eu não estou fora dessa lista. É necessário questionar.

É fundamental que especialistas falem sobre esse assunto com propriedade, sem ocultar o que já se tornou visível para muitos, mas que persiste camuflado. Se especialistas são impedidos de falar por trabalharem para as Big Techs, que surjam vozes independentes capazes de expor essa engenharia por trás do vício e do ódio. Discute-se não apenas a democracia ameaçada, mas toda uma sociedade adoecida. Quantas pessoas já foram atingidas? Não se trata apenas de um estrago de "opinião", mas de um dano psicológico que provoca alterações reais na química cerebral e no comportamento social, causados por gatilhos de dopamina e cortisol manipulados.

O ICL Notícias foi um dos veículos que abordou o impacto na saúde mental, ligando a "rolagem infinita" a prejuízos cognitivos que afetam a atenção e o controle de impulsos, mantendo a sociedade em estado de distração e ansiedade constante. Eles também possuem o projeto "A mão invisível das Big Techs". Este é um alerta que vai além do que o Papa Leão XIV traçou: não se trata apenas de um ataque ao sistema político, mas de um ataque aos neurônios de cada cidadão. Como se não bastasse dominar a política, é preciso "hackear" o sistema biológico, realizando uma verdadeira lavagem cerebral que nos controla pelo impulso.

Imagem da internet.


18 abril 2026

Contraste

Nada escuto, um refugio, de meu refúgio…
Busco um esconderijo, para me esconder.
Busco me distanciar, quero
Entrar em um outro mundo,
Quero entrar na fantasia,
Quero me manchar por entre as borboletas,
E seus pós encantadores.
Quero ali desmalhar,
Nada escutar.
Quero me prender, em um nada.
Tudo esquecer, e tudo lembrar.


Quero sair, deste casulo…
Quero escutar,
Quero sair do meu refúgio
Quero sair do meu esconderijo.
Viver em meu mesmo mundo,
Viver a minha realidade…
Se sujar nos poros das mariposas…
Quero ver o real,
Em meu ser, – quero viver!
Quero desmalhar, mas sonhar,
Poder acordar, e sentir.
Quero me prender, em um nada,
Quero ficar no tudo.
Tudo lembrar, e criar novas lembranças…


Valter Bitencourt Júnior, poeta, escritor e blogueiro.


17 abril 2026

A Evasão Silenciosa e a Soberania Ameaçada: O Real sob Ataque

O dólar entra no Brasil de diversas formas e, mesmo que existam mecanismos de rastreamento, isso causa problemas à moeda brasileira. Quem lucra são as gigantes da macroeconomia mundial, o que impacta diretamente a estabilidade do real. O governo Trump está "brigando de barriga cheia" ao querer questionar o Pix brasileiro, especialmente diante do avanço das criptomoedas e da dolarização do real, ocasionada pelos investimentos convertidos da moeda local para o dólar.

Contudo, o problema não reside apenas nas criptomoedas, mas também nas plataformas de jogos e streaming que pagam através de anúncios ou tarefas. Isso prende o usuário a esses apps, onde o lucro real vai para os criadores das plataformas — empresas sediadas em paraísos fiscais ou nos EUA —, gerando um ganho que não contribui para a economia do país.

Além disso, a lavagem de dinheiro praticada por organizações criminosas causa um impacto muito mais profundo no real do que no dólar. Como essa lavagem utiliza mecanismos que impedem o rastreamento, como empresas fantasmas, esse recurso acaba sendo convertido em dólar, ocasionando uma quebra de capital. Logo, esse é um problema mais interno do que externo, mas que acaba favorecendo a moeda americana.

Portanto, Trump parece perdido, alimentando teorias da conspiração ao tentar intervir em uma situação interna brasileira que é promovida pelas próprias gigantes da tecnologia. Ele não as atacará, pois elas lucram muito explorando a situação alheia e garantindo que a riqueza continue saindo do Brasil em direção ao sistema que ele defende.


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16 abril 2026

Análise Crítica: O Capitalismo de Cassino e a Blindagem das Instituições

Não se fala mais em esquema milionário; fala-se de um esquema bilionário que envolve, inclusive, influenciadores. Compreender a situação do nosso país a partir desse aspecto talvez nos permita, de fato, entender as desigualdades geradas por uma pequena parcela que, além de acumular riquezas, compõe um esquema de corrupção bilionário. Descobre-se que a questão não é apenas a lavagem de dinheiro por meio de plataformas de bets, mas também através de plataformas de criptomoedas — muitas das quais, por serem regulamentadas no país, possibilitam o rastreamento de recursos.

Tudo aponta que a regulamentação das bets tornou-se necessária; porém, mesmo com ela, nada impede que os impactos negativos continuem atingindo o país, diante de uma sociedade já endividada pelo seu poder de consumo. O ditado diz que "o mundo é dos espertos" — algo passado de geração em geração e do qual não temos dúvida —, mas cabe destacar que toda essa "esperteza" está levando muita gente aos seus devidos julgamentos e condenações.

As bets não apenas trouxeram o endividamento de milhares de brasileiros, como também expandiram a entrada do dólar no país, assim como as criptomoedas que vêm sendo rastreadas. Diante dessa dolarização, cabe destacar a importância da moeda local e do Pix. Este meio de transação interna tornou-se muito mais eficaz do que as criptomoedas, que são menos seguras devido à sua volatilidade e à dificuldade de rastreio sem a quebra de sigilo internacional.

Ficou compreensível que o esquema não se tornou apenas local, mas transacional. Esse tipo de estrutura não culpabiliza diretamente o governo, e sim as instituições que compõem a macroeconomia mundial e criam mecanismos lucrativos diante da desgraça alheia — o que muitos teóricos chamam de "capitalismo de cassino". O governo, por sua vez, cria as devidas medidas restritivas; porém, há um sistema muito maior que envolve instituições blindadas que constituem a economia global.

Mas qual o sentido real de citar a eficácia do Pix diante das criptomoedas e do endividamento nas bets? Esta é uma forma de trazer questões atuais: quando o governo Trump demonstrou preocupação com o "Pix brasileiro", foi porque ele afeta diretamente os cartões de crédito de bandeiras internacionais (como Visa e Mastercard). Esta é uma maneira de explicar como funciona o capitalismo de cassino e a sua blindagem.

A regulamentação das bets acabou por normalizá-las. Não vemos anúncios apenas feitos por influenciadores, mas também em redes de televisão, camisas de clubes de futebol, através de apresentadores e até em jornais considerados sérios. Trata-se de uma monetização milionária que ultrapassa o teto nacional. Logo, essas instituições perdem a isenção para criticar o sistema, tornando-se parte da blindagem do capitalismo de cassino.

Portanto, compreender a situação do país exige olhar para além da superfície. O que se revela não é apenas um problema de apostas ou de tecnologia, mas a engrenagem de um sistema que monetiza o desespero e a esperança de uma sociedade endividada. Quando instituições que formam a opinião pública tornam-se dependentes dessa monetização, elas perdem a autoridade moral para criticar o sistema. Nesse cenário, o Pix e a regulamentação não são "salvadores", mas evidências de que o Estado tenta rastrear o que a macroeconomia mundial tenta ocultar. O verdadeiro desafio não é apenas punir a "esperteza" dos influenciadores, mas enfrentar um sistema transacional desenhado para acumular riquezas em uma ponta, enquanto fabrica desigualdades bilionárias na outra.


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15 abril 2026

Um pouco de mim

Escrevo para sobreviver o tempo,
Respiro cada escrita
E vivo para reviver cada momento.
Não tenho mais a pressa,
Muito menos correrei.
Seguirei, e assim
Vou aprendendo
Com os passos da vida.
Escrevo para ser lembrado,
E não ser esquecido,
Penetro no coração
Daqueles que me leem,
E deixo um pouco de mim,
Ou do meu eu-lírico.

Imagem da internet.


11 abril 2026

Um Olhar Sobre a Partida de Carlos Filhar

O caso de Carlos Filhar é um dos que mais me comovem, assim como outros que envolvem suicídio. Não é fácil compreender o que se passa na mente humana, o quanto muitas vezes o ser luta internamente e nem sempre encontra saída. Acredito que o mais doloroso seja deixar uma carta de despedida: uma tentativa de se explicar ou, quem sabe, de se sentir livre e confortar a todos.

Muitos julgam e condenam sem mais nem menos; muitos pouco se importam com o que de fato aconteceu. Vivemos hoje em uma sociedade que perdeu os sentimentos, a compaixão e a misericórdia diante das redes sociais. Que o jovem Arthur tenha paz, que ele tenha conforto e possa seguir adiante com os seus sonhos, mesmo diante desse triste acontecimento — ser humano algum deve carregar esse peso.

É completamente triste a forma como as pessoas que utilizam as redes sociais podem se tornar tão cruéis. Julgam sem mais nem menos, condenam da pior forma possível, quando, na verdade, deveriam sentir o que o outro sente, deveriam buscar confortar e estender as mãos. 


Carlos Filhar/Imagem reprodução 


10 abril 2026

A armadilha dos títulos e a falsa segurança das capturas de tela

Somos, muitas vezes, condicionados a ler o título e acreditar que já dominamos o conteúdo. Com isso, cometemos erros sérios. O título, por sua vez, serve frequentemente apenas para atrair o leitor, não expressando a ideia completa do que foi escrito. A captura de tela (print), que muitos incluem nos comentários para tentar atestar a veracidade de uma informação, acaba contribuindo para a disseminação de notícias falsas — principalmente quando não verificamos as fontes. Logo, acabamos sendo enganados, especialmente quando o print é alterado e inclui nome e logotipo de um ou mais sites confiáveis.

Mas por que muitos compartilham prints em vez de enviarem o link original? Talvez a resposta seja que o ser humano é condicionado a consumir a imagem e o que nela está escrito. O print, por sua vez, é uma das formas de prender a atenção por ser uma imagem fixa. Logo vem a pergunta: por que não é enviado o print junto ao link do artigo? Quem sabe, para muitos, essa venha sendo uma das formas de adulterar a informação, acreditando que o destinatário não verificará a veracidade do conteúdo.

Hoje em dia, vemos com frequência nos comentários das postagens capturas de tela de sites de notícias. Não apenas em comentários, mas também em postagens, esses prints são compartilhados sem o link original, o que dificulta a checagem dos fatos. Afinal, nem todos têm o hábito de pesquisar no Google o título que se encontra no print para conferir se a data é recente ou se houve alteração no titulo e na descrição.

Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.


Entre Ódio e Ideais: O Paradoxo da Política nas Redes Sociais

Na internet, quando o assunto é política, muitos preferem mesmo é destilar todo o ódio, provocar o outro ou até mesmo diminuí-lo o máximo possível. Convenhamos que não há um diálogo plausível em que todos possam entrar em consenso. Observo que as pessoas comentam postagens referentes à política não pelo fato de gostarem de falar sobre o tema, mas, sim, pelo fato de quererem atacar sem mais nem menos, muitas vezes desfazendo-se de uma ou mais publicações.

Já houve o tempo em que as pessoas tentavam dialogar, trocar ideias e até mesmo aprofundar-se no assunto, através de comentários que, por sua vez, buscavam discorrer sobre o que foi postado, visando não fugir do tema. Fazer publicações voltadas à política, ultimamente, vem sendo nada mais, nada menos do que correr o risco de ser atacado; há um grupo formado apenas para atacar, contradizer e se opor o máximo possível.

A sociedade não gosta de falar sobre política; entretanto, muitos levantam bandeiras e estão dispostos a fazer de tudo para defender seus ideais. Há uma falta de comunicação muito grande; muitos não levam o assunto a sério e, quando o tema é política, há quem apenas comente com memes, imagens e vídeos com montagens tiradas de contexto, como forma de desconstruir o que foi postado. Hoje em dia, o uso de capturas de tela (prints) de sites de notícias contribui muito para que pessoas maliciosas se utilizem disso para modificar a imagem e manipular as pessoas com fake news, como se não bastassem os discursos de ódio, seguidos muitas das vezes por comentários preconceituosos e distorcidos.

Valter Bitencourt Júnior, Salvador, Bahia, Brasil.




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